html>COMUNICAÇÃO & POLÍTICA & CULTURA - JORGE ALMEIDA

 

VEJA E A CONSTRUÇÃO DO CR-P NAS
ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1998.

 

Murilo Cesar Soares*

 

FHC passou o dia conectado com o economista
Chico Lopes, mas estava de bom humor e convencido de que
o aumento dos juros teria um efeito efetivo para conter
a fuga de dólares. A nave Brasil, pelas palavras do presidente,
continuará no mesmo rumo.

(O Brasil vai ao ataque, Veja, 9 de setembro de 1998, p. 110)

 

INTRODUÇÃO

Neste ensaio apresentamos algumas observações analíticas sobre a forma como as reportagens da revista semanal de informação Veja enquadraram alguns acontecimentos relevantes para a sociedade brasileira, participando, assim, da construção do cenário de representação da política no período das eleições presidenciais de 1998. Este trabalho é parte de um projeto de investigação, em andamento, que inclui também análises das revistas Época e Isto É, do Jornal Nacional, dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, visando à composição de um painel da atuação do jornalismo brasileiro nesse período.

A questão das formas de participação do jornalismo no processo eleitoral brasileiro é uma temática inaugurada em 1989 e consolidada na eleição presidencial de 1994, com trabalhos de Venício Artur de Lima (1990), Antonio Fausto Neto (1994), Antonio A. Canelas Rubim (1994), Murilo Cesar Soares (1998), Márcia Coelho Flausino (1997), entre outros, os quais têm analisado o jornalismo político, procurando mostrar de que maneira ele instaura representações do “teatro político”. Flausino (1997), num ensaio sobre capas de Veja observa que na constituição desse theatrum, “alguns atores são escolhidos como protagonistas, outros entram para desempenhar papéis coadjuvantes, outros são apenas excluídos do elenco.” Para a autora, se o espaço jornalístico é considerado idôneo, objetivo, a divulgação de uma informação adquire um caráter explicador e quase dogmático. Essa parece ser a situação da revista Veja, uma das publicações jornalísticas de maior prestígio e a de maior tiragem no Brasil.

Fausto Neto, um rastreador incansável de índices desse processo na própria trama das estruturas discursivas, considera que o “campo da mídia” é responsável pela referenciação do real, na política, na cultura ou na economia, sendo um lugar onde são construídos os modos de inteligibilidade das atualidades. Para ele, é no campo da mídia que a política é nomeada, tematizada, hierarquizada e agendada (FAUSTO NETO, in MOUILLAUD/PORTO, 1997).

Afonso de Albuquerque (1998), apesar de insistir na importância do estudo das questões relativas à própria organização do trabalho redações, bem como das concepções dos jornalistas sobre critérios de noticiabilidade, a fim de compreender a forma como se produz a parcialidade da cobertura noticiosa, considera que invocar o que ele denomina “paradigma da manipulação da notícia” (que pressupõe a intervenção editorial com objetivos estratégicos das empresas e das elites), não é despropositado no caso brasileiro, devido à especificidade histórica e cultural de nosso jornalismo.

Apesar de não ser nosso propósito produzir dados em torno dessa controvérsia específica, no caso das eleições presidenciais recentes, candidatos presidenciais identificados com a manutenção das estruturas vigentes receberam atenção especial, proteção e elogios do jornalismo, conforme os estudos sistemáticos da imprensa nas eleições de 1989 e de 1994 vêm revelando. Sem se referir diretamente à eleição presidencial de 1998, um jornalista de fora do ambiente acadêmico, assim se referiu em entrevista, realizada em outubro, sobre a cobertura jornalística da crise em meio à qual se deu o pleito:

“O grande problema é que o jornalismo econômico nunca esteve tão vergonhosamente atrelado ao governo. A ombudswoman da Folha até falou disso. Por exemplo, a imprensa fica falando só da queda das bolsas. As bolsas só caem depois que a economia estourou. (...) A bolsa cai quando todos os indicadores da situação da economia real mostram que a economia já foi pro brejo. A bolsa é a última etapa, mas o noticiário é todinho centrado na bolsa. E você vê aí, no jornalismo, a televisão dizer bisonhamente: “Mas em que isso afeta a vida do cidadão comum? O que a bolsa tem a ver?” A bolsa não tem nada a ver, só que ela mostra que a economia está mal. (...) Então o jornalismo nunca enfrentou uma fase tão ruim no Brasil. (Biondi, 1998).

Alguns pressupostos mais específicos fornecem pontos de partida para este trabalho sobre a revista Veja. Ao darem um desenvolvimento retrospectivo, abordando os desdobramentos dos fatos, as revistas podem oferecer uma perspectiva de conjunto que, no entanto, não é neutra, partindo, pelo contrário de certos enquadramentos prévios, os quais acabam por orientar os textos (ENTMAN, 1991). As reportagens das revistas apesar de fortemente fatuais, insinuam interpretações ao longo do texto - através da ironia, das metáforas, das ilustrações e comparações, do histórico dos fatos - de modo a veicular opiniões sob a aparência de reportagem pura. Num caso extremo - mas não raro na imprensa brasileira - essas reportagens podem se converter literalmente em campanhas tácitas a favor ou contra pessoas, causas, políticas, instituições ou movimentos, idéias, realizando uma espécie de “propaganda invisível”.

José Luís Fiori, em texto de 1995 alertava para as consequências políticas desse processo de despistamento dos problemas nacionais:

“... a mídia usa hoje, invariavelmente, uma linguagem eufórica e esconde os fatos menos auspiciosos do ponto de vista dos investidores externos. E os próprios institutos de pesquisa, destinados a produzir e difundir os dados reais sobre a conjuntura, deixam de ser informantes confiáveis para participar deste esforço coletivo de maquiagem nacional. Como consequência, o que fora um consenso inicial e compreensível, produzido pela euforia dos primeiros resultados, vai sendo substituído por um trabalho de eliminação ativa e consciente - pela via do cerceamento ou distorção das informações - de toda a possibilidade de oposição. Neste quadro, o próprio dissenso, essencial à vida democrática, acaba sendo desqualificado como “catastrofismo” e vai se transformando, nesta guerra de sombras e expectativas entre países e regiões, numa espécie de moderníssimo crime de “lesa-pátria”. (Fiori, 1997, p. 73).

O estudo das representações instauradas pela imprensa semanal no período das eleições presidenciais tem um interesse peculiar, já que elas preenchem com matizes e meios-tons os perfis dos candidatos e participam da construção do cenário no qual os mesmos entram em confronto, contribuindo em larga medida, para a avaliação dos concorrentes, através de suas biografias, traços de personalidade, propostas, contrastadas sobre os dados que compõem o cenário.

 

ASPECTOS DO CENÁRIO

Entendemos o Cenário de Representação da Política - CR-P, conceito proposto por Venício Artur de Lima (LIMA, 1994, 1995, 1996), como um complexo praticamente inesgotável, que envolve muitas variáveis, na medida em que depende da perspectiva adotada por cada pesquisador. Para fins analíticos, portanto, cada pesquisa precisa fixar ou focalizar algumas dessas variáveis, a fim de estudá-las, consciente de que as mesmas não resumem a totalidade do CR-P.

Neste estudo, desenvolvido sobre textos da revista Veja de 9, 16, 23 e 30 de setembro e de 7 de outubro, examinamos a construção do CR-P no perído correspondente às últimas semanas da campanha eleitoral presidencial de 1998, focalizando três ordens de acontecimentos, as quais, conjuntamente, tiveram um papel relevante no desenho do cenário. Primeiramente, há a conjuntura econômica, representada, em especial, pela crise que envolve a economia brasileira, implicando a maciça fuga diária de dólares e a alta estratosférica dos juros - promovida com o objetivo de estancar essa sangria, mas de consequências negativas para a atividade produtiva e o nível de emprego. Ao lado dessa conjuntura, temos fatores de degradação das condições de vida da população, em diversos aspectos, dos quais se destacam a seca nordestina de 1998 e o desemprego, tornado crônico em níveis relativamente altos, com valores oscilando entre 7-8 e 14-16%, segundo a metodologia adotada. Por último, observaremos a própria atividade política como constitutiva do CR-P, especialmente através dos acontecimentos referentes às ações eleitorais dos candidatos e partidos, apoios, acusações, agenda de visitas e comícios, etc.

 

A CONJUNTURA ECONÔMICA E A CRISE

A revista Veja deu grande importância à crise econômica, estampando capas alarmantes, com títulos comos:

“O mundo em pânico” (2 de setembro)

“Fuga de dólares. Oito bilhões saem do Brasil em cinco dias” (9 de setembro).

Internamente, no entanto, o título da matéria dessa mesma semana parece um esforço para reverter textualmente os acontecimentos: “O Brasil vai ao ataque” (!). O texto aponta a gravidade da situação das finanças brasileiras, mas joga toda a responsabilidade pelos fatos no “calote russo”, noticiado na semana anterior, e que fez o governo sair em campo para defender-se com ferocidade (sic), elevando a taxa de juros. Veja tranquiliza:

A sangria de dólares associada à puxada de juros pode dar a impressão de que o governo está atabalhoado e agindo por pânico. Não é isso. O governo ainda tem pleno domínio da situação e está se valendo de instrumentos ortodoxos consagrados.(O Brasil vai ao ataque, Veja, 9 de setembro de 1998, p. 109)

As matérias de Veja procuram mundializar a crise, afastando a responsabilidade do governo, que é elogiado pela maneira como vem enfrentando as suas repercussões no Brasil. No dia 30 de setembro, a matéria “Está nas mãos dele” começa dizendo que o Brasil tem apenas dois caminhos a seguir: ou sai da crise mais moderno, ou volta ao tempo da inflação e subdesenvolvimento. Em cinco boxes com falas de economistas, apenas um, de Delfim Neto há uma crítica à política de câmbio e à concentração do governo na própria reeleição como os fatores mais graves da atual situação.

Na verdade, a revista reservou um espaço pequeno para tratar das causas da crise. Além da moratória russa, que apanhou o Brasil em cheio, menciona-se o rombo da previdência, o deficit público, ou seja os mesmos problemas que o próprio governo costuma indicar. O trauma brasileiro ocorre num momento de incertezas sobre o mundo e o país foi vítima de acontecimentos que agravaram sua posição. Coisas de mundo globalizado, conclui Veja.

No que respeita às medidas governamentais, a revista vê a “puxada agressiva nos juros” como um recado para investidores e especuladores, demonstrando que Fernando Henrique vai defender o Real “com a disposição de uma onça”. Em suma, para a revista, o aumento dos juros parece ser uma medida necessária e adequada para acabar com a especulação que vinha ocorrendo no país. Veja reconhece, todavia, a impopularidade do aumento dos impostos, “num país que já entrega ao governo 30% do que produz”. Para ela, o presidente é um líder firme, forte, disposto a vencer todos os obstáculos. Admite, finalmente, que mesmo ele que faça um ajuste em profundidade, demitindo funcionários aos milhares, economizando até no soro que vai para os hospitais, o país já não se salva sozinho, precisando do socorro do FMI, o que é uma forma de antecipar e legitimar a decisão do governo de submeter-se à tutela do Fundo.

Veja previne sobre as consequências amargas das medidas para os brasileiros, como o aumento do crediário e o aperto do cheque especial. Admite, por outro lado que, se a medida dói no bolso, “serve, por outro lado, para reverter a tendência de fuga dos investidores estrangeiros e para desestimular um tipo de especulação que vinha se tornando comum.” Lamenta que isso acabe com a popularidade de qualquer político, lembrando que a própria abertura do país aos produtos importados, já colocara boa parte da comunidade de empresários em guarda contra o presidente, chegando a vez dos funcionários, que vão pagar um pouco mais para cobrir seus benefícios.

Comparada a duas outras revistas semanais (Isto É e Época) Veja foi a revista que menos mencionou o nome do presidente em suas reportagens, o que distancia Fernando Henrique da crise. Já a própria palavra crise é, comparativamente, mais mencionada, embora, na maior parte das vezes, seja empregada com relação aos fatores e acontecimentos de âmbito internacional. O nome Rússia é usado muitas vezes, mais do que nas demais revistas, ratificando o enfoque que responsabiliza a moratória daquele país pela situação dramática do Brasil. Aliás, moratória (a russa, bem entendido) é, igualmente, uma expressão citada, muito mais vezes por Veja, em comparação com as demais publicações.

 

A SITUAÇÃO SOCIAL

Houve, relativamente, poucas matérias sobre questões sociais em Veja no período analisado e as que foram publicadas trouxeram visões positivas sobre a sociedade brasileira.

“Feira de Novidades”, em 2 de setembro, apresenta pesquisa de padrão de vida, realizada pela IBGE, que mostra que o Brasil continua desigual, mas tem características “surpreendentes”. A matéria traz números sobre o aumento no pagamento da Previdência e dos planos de saúde, sobre o percentual da população com casa própria, o percentual de obesos em relação as subnutridos, o crescimento da estatura dos indivíduos.

“O mais difícil foi feito”, de 16 de setembro, é uma reportagem que comenta o relatório da ONU mostrando que o país melhorou muito, tendo atingido, pela primeira vez, em 1995, o patamar de alto desenvolvimento humano. “Riqueza escondida”, na mesma data, trata do interior do Brasil, onde a qualidade de vida é melhor.

Em 23 de setembro, “O círculo vicioso da educação” apresenta dados de uma pesquisa encomendada por Veja ao IPEA, mostrando que o desemprego não atinge todos os brasileiros da mesma forma, mas principalmente aqueles com menor grau de instrução.

Mas a matéria mais positiva e também a mais longa foi publicada no dia 30 de setembro. “O Brasil Emergente”, com seis páginas, diz, com base em pesquisa divulgada pela PNAD, que milhões de famílias saíram da pobreza, aumentando a renda, o tempo de educação e as viagens ao Exterior. Segundo a matéria, cresceram a classe média e o número de ricos, bem como os “emergentes”, enquanto os pobres e miseráveis diminuíram.

“Por observação visual, é possível perceber que um grande número de brasileiros que antes seriam classificados como pobres ou muito pobres, melhorou de vida e usufrui hoje os confortos típicos da classe média. (...) Esqueça um pouco as notícias de que os mercados financeiros estão derretendo e atente para alguns números. Nos últimos seis anos, perto de 19 milhões de pessoas deslocaram-se da base para o miolo da pirâmide social.” (p. 62)

Com base em dados da empresa de pesquisa Marplan a reportagem diz que 3,9 milhões de pessoas incrementaram seu padrão de vida enre 1993 e 1997.

“... Há dez anos, consumiam o essencial, não tinham crédito no banco e o objetivo central do mês era pagar as contas e abastecer a despensa. Os emergentes são 58,7 mihões de pessoas, que estão entre os pobres e a classe média. Eram 45 mihões há seis anos, pelos números do IBGE. Foram beneficiados com a estabilidade da moeda, a queda dos preços e a volta do crédito. ‘Eles não são mais pobres, e não pensam mais como pobres. Conheceram confortos de classe média e têm enorme potencial para progredir’, diz o sociólogo carioca Amauri de Souza..”(p. 63).

Para Veja, no entanto, aparentemente, essa população teria apenas uma característica muito ruim: são extremamente ingratos:

“... Não avalia muito bem aonde chegou porque está cercada de indivíduos cujo padrão de vida elevou-se na mesmíssima proporção. Em muitos casos, o índice de insatisfação permanece inalterado. A pessoa tende a continuar reclamando que tudo vai mal, por aquele tipo de reflexo que faz o sujeito achar que a meteorologia está sempre em crise. Se é verão, queixa-se do calor. Se é inverno, queixa-se do frio.” (p.67)

Em suma, as matérias que abordaram a situação social foram, na maioria das vezes, reportagens sobre aspectos positivos da sociedade brasileira, deixando de lado, coincidentemente, nessas semanas, os problemas maiores vividos pela população no ano de 1998: a seca no Nordeste e os índices recordes de desemprego.

 

ATIVIDADE POLÍTICA

Em “A bandeira do emprego”, de 2 de setembro, Veja contrasta as propostas de FHC e de Lula para a criação de empregos, ironizando a ambos, mas especialmente o candidato do PT, pelo irrealismo dos números. Cita o suposto equívoco da política de empregos de Jospin, na França, onde o investimento governamental foi desproporcional em relação aos empregos criados, concluindo que seria mais barato distribuir esse dinheiro entre os desempregados.

A revista ironiza novamente, em 9 de setembro, ao dizer que Moscou “mais uma vez vem em socorro da esquerda”, desta vez através da crise mundial, que chegou à campanha eleitoral, no discurso de PT, o qual acusa o governo de estar empurrando a situação com a barriga para não ameaçar a reeleição. No entanto, segundo a pesquisa do Ibope, diz a matéria, o desastre russo não pôs em risco o rumo da campanha, que continua favorável ao presidente-candidato.

Extremente reveladora é a reportagem “Uma festa indispensável”, de 16 de setembro, relativa aos 30 anos da revista Veja. Uma foto de meia página mostra Fernando Henrique Cardoso e esposa ao lado de Roberto Civita, presidente e editor da Editora Abril, que publica a revista. Há uma troca de elogios na matéria: Veja diz que Fernando Henrique foi capa doze vezes e entrevistado sete vezes pelas páginas amarelas. O presidente retribui dizendo que acompanha Veja desde o primeiro número e “de lá para cá só faz tornar-se mais informativa, o que é ótimo”.

No mesmo número, a matéria de capa sobre os marqueteiros apresenta-os como os homens que “elegem” os candidatos, adaptando seu estilo e sua linguagem. O corpo da matéria só faz menção Nizan Guanaes, responsável pela campanha de Fernando Henrique, dizendo como ele orientou o presidente a usar um linguajar mais simples, a ser mais natural, evitando a criatividade obsessiva dos publicitários. Toni Cotrim, responsável pela campanha de Lula tem apenas uma referência num box curto ilustrado por uma foto sua ao lado de Lula, em atitude de apreensão e desânimo.

A “Carta ao leitor” de 30 de setembro com o sugestivo título de “Em campanha contra a crise”, é toda construída sobre o discurso de Fernando Henrique Cardoso, no qual o presidente anuncia a intenção de tomar medidas duras para que o Brasil não seja devastado pelo terremoto financeiro. Basicamente, essas medidas se resumem, segundo o texto, a cortar despesas e aumentar receitas, incluindo a elevação de impostos e o combate à sonegação. Da forma como foi redigido, elogioso e apoiador, o texto (que equivale ao editorial dos jornais, ou seja a expressão do grupo) é uma autêntica peça de campanha pela reeleição.

“Aposta no milagre”, na mesma edição apresenta a campanha de Lula tomada pelo desânimo. Para a revista, os aliados de Lula não sabem mais o que fazer e só resta a eles esperar por um milagre:

“Aumentar a simpatia dos eleitores por Lula revelou-se uma missão quase impossível desta vez. A primeira semana do horário gratuito fez os índices de rejeição do candidato saltarem de 33% para 41%.” (p. 49).

A matéria de capa dessa mesma semana é: “Porque o Brasil desconfia dos políticos”, mostrando a necessidade de “separar o joio do trigo”no Congresso. Ao indicar os parlamentares faltosos e ineficientes e ressaltar os seus antípodas, a revista, na prática, se apresenta como um padrão de referência sobre excelências políticas, legitimando, tacitamente, suas representações sobre os candidatos à presidência (que não fizeram parte da matéria).

A edição de 7 de outubro, quando já estava confirmada a reeleição em primeiro turno, traz, na capa, um Fernando Henrique eufórico, com os polegares para cima e o título paradoxal: “Agora é guerra”. Abaixo, o primeiro subtítulo é: “O desafio de FHC reeleito é impedir que a crise afunde o Brasil do Real”. É, praticamente, uma edição comemorativa da reeleição de Fernando Henrique, entusiasmada e cheia de rostos sorridentes.

A Lula, Veja de outubro reserva um texto de gênero indefinido (reportagem, opinião?) com o título “E agora, companheiro?”, que proclama normativamente em sua chamada: “Só resta um caminho a Lula: criar um novo PT que, livre dos sectarismos, se alie à esquerda contemporânea na busca pela ‘terceira via’”. Estaria Veja sugerindo que o PT apóie Fernando Henrique?

 

IMPRENSA E DEMOCRACIA

As análises que apresentamos acima revelam a convergência das reportagens nas últimas semanas de campanha eleitoral, em certas direções de modo consistente. No campo econômico, há a atribuição da responsabilidade à crise às entidades e potências externas, mundializando o fenômeno e desconectando-o das diretrizes da política econômica do governo de Fernando Henrique. Não há análise propriamente, pois essa teria que mostrar como a política econômica tornou vulneráveis a economia e as empresas brasileiras. Veja subscreve a política governamental e se limita a lamentar a superveniência da crise externa, sem questionar a política de sobrevalorização do câmbio e de abertura para as importações, que, nos últimos anos, foram liquidando empregos e tornando a economia brasileira vulnerável ao mercado financeiro mundial. Na área social, há um destaque sistemático de indicadores das melhoras na sociedade brasileira, omitindo as circunstâncias extremamente graves em que vive parte importante da população, e dos aspectos que revelam a vulnerabilidade dos elos mais fragilizados da sociedade. Na parte relativa à atividade política e a campanha eleitoral, destaca-se efusivamente Fernando Henrique nas reportagens, enquadrando-o de forma positiva e entusiasta, antecipando, de passagem, a derrota de Lula. O campo eleitoral é, assim, monopolizado pelo candidato oficial, sem o qual, aparentemente, seria o caos. Em Fernando Henrique, só se vêem qualidades, resumindo a política brasileira ao pensamento único do presidente, numa espécie de novo cesarismo.

A relação entre o jornalismo e a política precisa ser rediscutida, à vista de exercícios analíticos como este, que apenas corroboram afirmações teóricas que vêm sendo feitas e que têm sido verificadas empiricamente nos estudos recentes de comunicação e política no Brasil, em especial nas eleições presidenciais de 1989 e de 1994, por diversos autores. Basicamente, a questão é: que democracia é possível construir num quadro em que os meios de comunicação participam diretamente da luta política ao criarem o clima favorável a um dos candidatos, por meio de omissões, atenuações e exaltação? Essa questão aumenta em importância à medida em que os meios tendem à concentração industrial-mercadológica, incrementando consideravelmente seu poder de intervenção política, em especial nos momentos de eleições, quando a sociedade se manifesta pelo voto.

A democracia que se pode projetar tendo em vista a concentração mediática parece, em grande parte, circunscrita e à inteligibilidade e ao repertório propiciados pelo sistema dos meios. O caso do comportamento de Veja, tomado para análise, é característico do estreitamento das informações. As edições analisadas apresentam um painel seletivo e direcionado da economia, da sociedade e da política brasileiras, numa perspectiva extremamente interessada. A análise indica uma identificação entre as matérias e os interesses do candidato oficial, uma fusão de vontades, o que caracteriza mais a publicidade, do que a informação jornalística. Nessa situação, o jornalismo de Veja passa a funcionar como um sistema subsidiário da política oficial, do governo, das políticas adotadas pelo grupo no poder, ao invés de oferecer condições para um genuíno debate nacional. Como a revista desfruta de um conceito muito elevado na sociedade brasileira, sendo, geralmente vista como uma espécie de referência para o jornalismo analítico e investigativo, as suas reportagens são tomadas como extremamente imparciais e independentes. Esse prestígio advém, certamente de um histórico de 30 anos, nos quais a revista publicou matérias de grande repercussão e do reconhecimento da enorme capacidade de cobertura do veículo, publicado por um dos mais poderosos grupos editoriais do país.

Em suma, as representações da conjuntura econômica, da situação social e da atividade política examinadas praticam enquadramentos não-críticos às políticas do governo e ao candidato presidente. Não se exercita um jornalismo de esclarecimento, mas de enaltecimento, de apologia, de otimismo. Trata-se de um jornalismo como função política, que contribui para a instauração de um cenário que exime o candidato-presidente de responsabilidade nos acontecimentos negativos da economia e da sociedade e que salienta os resultados positivos - ou menos insatisfatórios - jamais insistindo nos temas problemáticos da política governamental.

Uma conduta como a analisada, parece confirmar as suposições de que, em geral, mas principalmente, em situações de crise ou nas quais estão em jogo decisões cruciais, a imprensa - longe de apresentar um registro do espectro de aspectos e de opiniões - participa efetivamente da criação de um cenário de representações compatível com seus interesses e dos grupos sociais estabelecidos. Essa hegemonia é constituída, no entanto, através de procedimentos tão sutis que sua malha finíssima não é facilmente percebida, especialmente, porque todos, hoje, sentem a necessidade de informações e não se dão conta da sua natureza íntima ou seja, de sua produtibilidade. Porém, a análise das reportagens permite verificar, em cada caso, a natureza arbitrária dos significados atribuídos aos acontecimentos. pelos discursos.

Em Veja, se não se trata, naturalmente, de jornalismo puramente informativo, o texto também não se apresenta como opinião declarada. As reportagens analisadas realizam um enquadramento limitado, parcial, direcionado e seletivo, que acentua os pontos favoráveis e omite ou atenua os pontos problemáticos da conjuntura. Temas controvertidos são apresentados como unanimidades, a versão é colocada como o relato consensual, produzindo um texto de despistamento, tornado possível por meio de uma operação discursiva cujo álibi são os pormenores fatuais dos eventos e cuja forma é o de uma narrativa bem-humorada e colorida.

O que encontramos nas matérias analisadas caracteriza um jornalismo de boa-vontade, de integração com o status quo, adotando uma linha de não questionar o governo, de não incomodar, e, sempre que possível, de promover. Essa prática, ao contornar, distorcer e camuflar as circunstâncias efetivas da situação do país, sonega à sociedade elementos de reflexão e avaliação e, na ausência da discussão pública e do questionamento, os problemas se agravam e as medidas adotadas são erradas. No entanto, é de se supor que alguns grupos tenham se beneficiado politicamente ou economicamente com essa situação, enquanto os custos são socializados entre as maiorias, que apenas pagam a conta, porque não têm poder para transferir para outros os ônus das políticas públicas desastradas.

 

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Afonso de. Manipulação editorial e produção da notícia: dois paradigmas da análise da cobertura jornalística da política. In: RUBIM, Antonio Albino C.; BENTZ, Ione Maria G; PINTO, Milton José (orgs.) Produção e recepção dos sentidos mediáticos. Petrópolis: Vozes, 1998.

BIONDI, ALOYSIO. O Brasil já quebrou em maio. Caros Amigos, out. 1998, p. 22-7.

ENTMAN, Robert M. Framing US coverage of international news: contrast in narrratives of the KAL and Iran Air incidents. Journal of Communication, 41 (4), Autumn, 1991.

FAUSTO NETO, Antonio. A construção do presidente: estratégias discursivas e as eleições presidenciais de 1994. Pauta Geral, Salvador, V.3, 1995, p. 23-57.

_____. Telejornais e a produção da política: estratégias discursivas e as eleições presidenciais de 1994. In: MOUILLAUD, Maurice; PORTO, Sérgio Dayrell (org). O jornal, da forma ao sentido. Brasília: Paralelo 15, 1997.

FIORI, José Luís. Os moedeiros falsos. Petrópolis: Vozes, 1997.

FLAUSINO, Márcia Coelho. Quatro capas de Veja: um breve exercício do olhar nas eleições de 1989 e 1994. Texto apresentado no VI Compós, São Leopoldo, maio de 1997.

LIMA, Venício Artur de. Televisão e política: hipótese sobre a eleição presidencial de 1989. Comunicação & Política, São Paulo, n. 11, p. 29-54, abr./jun. 1990.

_____. Televisão e poder: a hipótese do cenário de representação da política, CR-P. Comunicação & Política, Nova Série, v. 1, n.1, p 5-22, ago./nov. 1994.

_____. CR-P: novos aspectos teóricos e implicações para a análise política. Comunicação & Política, nova série, v. 1, n. 3, p 95-106, abr./jul. 1995.

_____. Os mídia e o cenário de representação da política. Lua Nova, n. 38, 1996.

RUBIM, Antonio A. Canelas. De Fernando a Fernando (II): caleidoscópio mediático-eleitoral 1994. Textos de cultura e comunicação. Salvador, Fase II, n. 33, 1995, p. 5-20.

SOARES, Murilo Cesar. Scenery, advertising and audiences in Brazilian presidential campaigns. Texto apresentado no 21o. Congresso do IAMCR, Glasgow, julho de 1998.

VEJA. Edições dos dias 2, 9, 16, 23 e 30 de setembro e 7 de outubro de 1998.

 

* Doutor em Comunicação Social (USP, 1996). Professor do Curso de Comunicação Social da FAAC/Unesp. Professor do Curso de Pós-Graduação “Comunicação e Poéticas Visuais, da FAAC/Unesp. A preparação do material das análises contou com a participação de Cristiane G. da Silva, Fernanda C. Miranda e Ísis B. de Sousa, estudantes de Jornalismo da FAAC, Unesp.

 

Clique para voltar à página principal

.

 
 clique aqui e mande sua opinião