A EMERGÊNCIA DOS RADIALISTAS POLÍTICOS (1982-1994):
DE “DELEGADOS DO OUVINTE”
A “DELEGADOS DO ELEITOR”(*)
MÁRCIA VIDAL NUNES (**)
1.1 - Comunicadores Políticos Versus Políticos Comunicadores
As estruturas simbólicas e a linguagem conferem aos seres humanos um “senso moral” pelo qual atribuímos significados a nós mesmos, ao mundo e aos outros. A vida e a arte trabalham com problemas fundamentais da existência humana, e ambas objetivam a resolução simbólica do conflito através da comunicação. A criação de um ambiente simbólico dá significado ao mundo e às nossas ações, ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de redefinições, pois a comunicação envolve um certo grau de jogo ou de indeterminação.
A política é o terreno por excelência da dramatização: os líderes “personificam” algo para o grupo através de sua atuação, a sociedade participa vicariamente do drama social, inclusive sob a forma de “entretenimento”, identificando heróis, vilões ou loucos, situando-se na “cena”. Políticos, conscientes da projeção de suas imagens sobre as audiências, constroem pseudo-eventos, acontecimentos de entretenimento e desempenhos teatrais, através dos quais podem controlar a apresentação de sua imagem para a massa (SOARES, 1996:149-150).
Para Nimmo(l976)(citado por SOARES,1996), os espectadores não formam uma audiência passiva. Capazes de ler os significados do desempenho, suas expectativas ajudam a determinar as expressões que um ator usa para influenciar as impressões da audiência, podendo literalmente “atuar” para sua audiência. O conteúdo cognitivo da política, segundo Nimmo, vem depois da impressão afetiva. Por isso, as pessoas geralmente sustentam opiniões políticas sobre um mínimo de informações, respondendo mais ao estilo pessoal de líderes do que à sua experiência política. Os cidadãos acabam tendo laços emocionais mais fortes com as figuras políticas, assuntos, acontecimentos, do que laços racionais.
Para o sociólogo SCHWARTZENBERG (l978), a política é hoje desempenhada por personagens. Cada dirigente parece desempenhar um papel - o de herói, de pai, de líder charmoso, de homem comum, etc. O primeiro ponto para compreender a política da encenação teatral é a imagem, segundo SOARES (1996), ou seja, o conjunto de traços que o político selecionou para apresentar à observação pública. Ela oferece um símbolo visível e tangível, capta o interesse do público, prende sua atenção. A imagem também é o substituto de um programa, serve de rótulo, é a “marca” dos políticos, sinal distintivo que simboliza sua originalidade.
SOARES (1996:152) ressalta ainda que a propaganda (especialmente quando se pensa nos meios audiovisuais de comunicação de massa) atua para mitologizar a vida dos homens públicos, dando à sua trajetória, suas lutas, seus ideais o colorido das formas ficcionais. A alternativa discursiva adequada a esse processo é a dramatização/narração. (....) Essa narrativa deve ser elaborada com todos os ingredientes da ficção, da fábula, com suas contradições, conflitos, sofrimentos e glórias. O objetivo é seduzir o eleitor ou cidadão pela imagem projetada do político, de forma a obter sua adesão, pela atração do líder, ao personagem vivido pelo ator político.
Trata-se de uma representação social propícia à projeção ou à identificação pelas audiências. A projeção é uma noção que permite discernir discursos formalizados não como argumentos, mas como narrativas, desempenhando, no entanto, papel equivalente ao das ideologias na economia simbólica da vida política das sociedades.
Por meio da dramatização, o político se integra à linguagem de espetáculo dos meios de massa, com encenações onde é possível enxergar a mão da providência, a força do destino que conduz o personagem, etc. Por isso não faltam os ingredientes da estrutura ficcional, como os desafios, as provações purificadoras, o retorno triunfal, o conflito, os heroísmos. O objetivo é modelar um personagem, que o político adotará na transação retórica com a audiência (herói, igual, pregador, pai, etc.).
A forma como o político tradicional passou a fazer política se assemelha cada vez mais à prática cotidiana do comunicador. Hoje, o comunicador que ingressa para a política tem que concorrer com os políticos comunicadores, cada vez mais hábeis, e mais afinados com as modernas técnicas de persuasão em comunicação. Durante anos, os radialistas utilizaram sozinhos essas estratégias e, talvez, por se apresentarem de forma despretenciosa e não como políticos tradicionais, foram ganhando a confiança do povo.
Sem pretensões políticas definidas num primeiro momento, os comunicadores tratavam das carências e dos mais variados tipos de problemas populares, estabelecendo uma profunda empatia com os ouvintes, assumindo toda sorte de papéis, de acordo com o discurso radiofônico em que atuavam. No gênero policial, os locutores assumiriam freqüentemente a condição de herói; no gênero esportivo, o de compadre, elemento “igual” ao povo; no gênero religioso, a condição de pregador, o pastor-locutor; no gênero de variedades, onde a prestação de serviços é uma marca registrada, o locutor usualmente assumiria a condição de amigo, companheiro do ouvinte e de defensor de seus direitos mais fundamentais.
O objetivo deste trabalho é analisar o caso dos radialistas que ingressaram para a política em Fortaleza, no período que se iniciou em 1982 e se estendeu até 1994. Em 1982, com a consolidação da abertura democrática que se seguiu ao declínio do regime militar, houve um “boom” dos radialistas prestadores de serviço no rádio AM em todo o país. Fortaleza, como não poderia deixar de ser, seguiu essa tendência nacional. Com a redemocratização, o rádio que, aparentemente, ocupava um lugar secundário, tendo-se transformando apenas numa simples “máquina de lazer”, segundo CAPARELLI (1981:83), iniciou, paulatinamente, a recuperação do terreno perdido. Apesar da grande penetração do rádio FM já a essa época, o rádio AM começou a investir maciçamente na informação, prestação de serviços e no esporte. A divulgação musical foi assumida pelo rádio FM, restando ao rádio AM a manutenção de um tipo de música que só atinge determinados segmentos da população (classes C, D e E).
A tendência política nacional apontava para a formação de redes de rádio e televisão. Emissoras do sul começaram a se integrar com o restante do país através da uniformização da programação, com inúmeros programas de sucesso sendo repetidos ou copiados por apresentadores. A fórmula de sucesso parecia ser uma só, distribuída por todas as regiões brasileiras. Até as estruturas dos programas eram semelhantes (vinhetas, seções, estilos de apresentação). Essa padronização trouxe de volta os patrocinadores ao rádio AM, conferindo-lhe prestígio que perdera com a introdução da TV nos anos 50 e depois com o surgimento do rádio FM e o período da ditadura militar, quando o rádio e a televisão faziam basicamente entretenimento.
Em Fortaleza, não seria diferente. Os comunicadores que tiveram o privilégio de lançar o novo sistema de se fazer rádio AM pelo país afora obtiveram sucesso. Popularidade, prestígio e a possibilidade de ingressar na política com boas possibilidades de êxito. O ingresso dos radialistas na política, após os anos de ditadura militar, aconteceu no início dos anos 80, mais especificamente, nas eleições de 1982, atingindo o clímax em 1986 e arrefecendo a partir de então. Nas eleições subseqüentes, outros radialistas foram eleitos, mas seguindo outras tendências e fatores.
Em Fortaleza, sete radialistas de sucesso, no período que se iniciou em 1982 e foi até 1994, atuavam nos setores de prestação de serviços, policial e esportivo. Freqüentemente, esses radialistas atuavam em vários desses setores simultaneamente ou passaram por eles ao longo de suas carreiras. Os radialistas que se elegeram como políticos para cargos legislativos em Fortaleza são: Gomes Farias, Almino Menezes, Cid Carvalho, Narcélio Limaverde, Edson Silva, Luiz Ximenes Filho e José Tadeu Silva do Nascimento. Esse último, atuando no rádio e na televisão no gênero policial ao mesmo tempo, pouco antes de sua eleição em 1992, inauguraria uma nova forma de ingresso do profissional de comunicação na política, como veremos posteriormente.
1.2- Relação Rádio AM e Mercado: Programação para os Pobres
Dados fornecidos pelo Ministério das Comunicações (1) demonstram que existem hoje no país 1573 emissoras AM, 1281 emissoras FM, 32 emissoras de ondas curtas e 80 de ondas tropicais. Dessas duas mil novecentas e sessenta e seis emissoras existentes no Brasil, quarenta por cento pertencem a políticos, sete por cento à rede católica, vinte por cento a igrejas adventistas e pentecostais e vinte por cento aos empresários de Comunicação. (2)
Segundo dados fornecidos pelo IBGE, em 1993, havia quatrocentos e quarenta e dois quinhentos e noventa e dois domícilios que tinham aparelhos de rádio de um total de 36.957.963 domícilios na zona urbana e rural (3). Desse total, 25.980.302 domicílios se localizam na área urbana e 5.462.290 na zona rural.
No Ceará, segundo dados fornecidos pela Delegacia do Ministério das Comunicações (4), existiam um total de 79 emissoras AM, 23 FM e uma emissora em onda tropical. Desse total, vinte e quatro emissoras (14 FM e 10 AM) estão em Fortaleza (5). Na capital, as emissoras Am de rádio atingem, basicamente, a uma audiência formada pelas classes C, D e E, sendo que a rádio CBN (6)alcança também as classes A e B.
No Ceará, conforme dados do IBGE de 1995 (7), de um total de 1.495.627 domicílios na zonas urbana e rural, 1.218.801 domicílios (8) tinham rádio, sendo a maior concentração de aparelhos nos domícilios cujo rendimento mensal domiciliar se situava entre um e dois salários mínimos (9) tanto na zona urbana quanto na zona rural. Desse total, 833.696 domicílios se situavam na zona urbana e 385.105 na zona rural.
Para se ter uma idéia de quem ouve rádio em Fortaleza, observem-se os dados do IBOPE no período de vinte e seis de agosto de 96 a 29 de setembro de 96. O Ibope realizou noventa entrevistas por dia, com os seguintes resultados: 54.2% dos ouvintes ouvidos eram do sexo masculino e 45.8% do sexo feminino. Desse total, 21.45% estavam na classe C e 64.4% nas classes D/E. A maioria dos ouvintes tinha entre 30 e 39 anos - 17.8%, sendo que 67.3% estava situado na categoria dos analfabetos aos que tinham a oitava série incompleta do primeiro grau.
Os programas de maior audiência nas rádios AM são os programas de variedades. Os mais ouvidos são os apresentados por Paulo Oliveira na Rádio Verdes Mares, das 17 às 21 horas; por João Inácio Júnior, na Rádio Verdes Mares, das 13 às 16 horas; por Carlos Augusto, na Rádio Verdes Mares das 9 às 12 horas e o programa apresentado por Nonato Albuquerque na rádio CBN das 9 às 12 horas (10).
1.3 - Esporte, Polícia e Prestação de Serviços no Rádio Cearense
O ingresso de radialistas na política, em Fortaleza, não se restringiu ao período 1982-1994. Já nas eleições de 1950, a Ceará Rádio Clube elegeu o locutor Paulo Cabral de Araújo prefeito de Fortaleza. Com o surgimento da Rádio Dragão do Mar, em 1958, por iniciativa do PSD, em Fortaleza. O principal objetivo da rádio recém-criada era ganhar as eleições da UDN no Estado. A rádio Dragão do Mar alcançou enorme popularidade com suas novelas, seus programas esportivos, musicais e, especialmente, com um radiojornalismo forte e impetuoso. O seu poder de penetração superava em muito as outras emissoras; era de 1300 KW, quando o da segunda estação, a Ceará Rádio Clube, era de 600 KW. Atingia todo o Estado do Ceará, regiões vizinhas do Nordeste e até outros pontos do país. Nas eleições de 1958, Parsifal Barroso (PSD) ganhou as eleições para governador do Estado tanto na capital quanto no interior. O PSD elegeu, ainda , o senador e a maioria dos cargos à Câmara dos Deputados (FONTENELLE, 1992: 33-35).
Em 1959, a rádio Dragão do Mar foi adquirida pelo empresário Moisés Pimentel. A partir de então, a emissora, que, antes era do PSD, passou a seguir uma linha de esquerda de apoio ao governo federal, principalmente com as eleições de 1962, quando Moisés Pimentel se lançou candidato a deputado federal pelo PST, partido de linha trabalhista, do qual o empresário foi o principal membro fundador. Nas eleições de 1962, a emissora lançou seus próprios candidatos a deputado, conseguindo eleger no plano federal Moisés Pimentel e no plano estadual Edmilson Ximenes, José Fiúza Gomes e os radialistas Blanchard Girão e Aécio de Borb (11). Mais dois suplentes também foram eleitos: Anibal Bonavides e Peixoto de Alencar, este último também radialista. Todos foram eleitos pelo Partido Social Trabalhista em coligação com o Partido Liberal, tendo sido o primeiro fundado pelo empresário Moisés Pimentel que reuniu um grupo de amigos com tendências ideológicas próximas, a princípio de defesa ao governo Goulart (12) (FONTENELLE, 1992: 61-62).
Nos anos 70, após o golpe militar de 1964, e durante os obscuros anos da ditadura militar, o radialista cearense que ingressou para a política de maior destaque foi o radialista esportivo Paulino Rocha, que se elegera deputado estadual para dois mandatos (1974 e 1978), que faleceu prematuramente no início dos anos 80.
Com o início do período de redemocratização, já no final dos anos 70, a primeira eleição direta para o governo do Estado aconteceu em 1982, quando inúmeros radialistas disputaram as eleições para vários cargos. A partir daí e, até 1994, a participação de radialistas nas eleições seria intensa.
Segundo dados fornecidos pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Ceará, 170 profissionais de Comunicação Social ( entre radialistas, jornalistas, publicitários, gráficos, relações públicas e fotógrafos) disputaram vagas ao governo Estadual, ao Senado, à Câmara Federal, à Câmara Estadual e à Câmara de Vereadores de Fortaleza, nas eleições ocorridas entre l982 e l994. Desse total, dez profissionais de Comunicação foram eleitos: oito radialista (13) (dos quais dois eram também jornalistas e um proprietário de uma emissora de rádio), um só jornalista e um publicitário.
Dos sessenta e nove radialista (14) que se candidataram às eleições realizadas entre l982 e l994, havia quatro que exerciam funções técnicas. Um desses radialistas conseguiu se eleger deputado estadual e, posteriormente, federal: Edson Silva, do PDT, radialista policial, seria deputado estadual em l986, chegando ao Congresso Nacional em l990. Edson não chegou a concluir o curso de Administração de Empresas, deixando a faculdade, para se dedicar integralmente ao rádio e, posteriormente, à política. Em 1995, ele assumiu novamente o cargo de deputado federal, pois ficou na terceira suplência nas eleições de l992. Raimundo Gomes Farias, também formado em Direito, radialista esportivo, elegeu-se duas vezes para a Câmara Estadual, em 1982 e em l986, ao lado do também advogado Almino Menezes que só obteve um mandato em l982. Com exceção desses, os demais só cursaram até o segundo grau e eram provenientes das classes C ou D: Narcélio Limaverde, deputado estadual em l986, pelo PMDB; Luiz Ximenes Filho, deputado estadual em l992, pelo PSDB; Moésio Loyola, deputado estadual em l990, reeleito em l994.
Além disso, vinte e um radialistas também jornalistas disputaram diversos cargos e só dois obtiveram sucesso. O único radialista do Ceará, também jornalista, que conseguiu chegar ao senado, foi Cid Carvalho, do PMDB, em l986, que tinha o curso superior em Direito e era proveniente da classe A. Ele era radialista político, esportivo, policial e prestador de serviços, mas se notabilizou pelo programa policial que apresentava. Tadeu Nascimento que, além de radialista policial era também jornalista, elegeu-se vereador em l992, pelo PSDB, estudou Sociologia (interrompeu o curso antes de concluir) e Comunicação Social.
Três radialistas eleitos pertenciam à área policial; dois se notabilizaram pelo desempenho no radialismo esportivo e três como apresentadores de programas de variedades, onde a ênfase era a prestação de serviços. Verifica-se aí que esporte, polícia e variedades (prestação de serviços) foram as áreas que mais propiciaram a eleição de radialistas. Tanto o gênero esportivo como o policial e o de variedades implicam um contato íntimo com o povo, com o radialista assumindo diferentes papéis.
Nos gêneros esportivo, policial e de prestação de serviços, o contato íntimo e privilegiado entre o radialista e o povo é total. O radialista passa a lidar com as necessidades e as emoções mais delicadas e subjetivas dos ouvintes e torna-se, em alguns casos, tão familiar ao ouvinte quanto alguém querido de sua família, assumindo, muitas vezes, um papel até mais significativo. Essa tendência se confirma não só entre os radialistas, mas, também, entre os proprietários de emissoras de rádio e radialistas eleitos nesse período.
Quarenta e três jornalistas se candidataram nesse período, mas o único jornalista eleito foi Francisco Antônio Martins Nogueira, pelo PTB, para a Câmara Municipal em l988, e reeleito em l992. Dos vinte e oito outros profissionais da área de Comunicação que se candidataram nesta fase estudada, o único profissional que obteve êxito na carreira política foi o publicitário Gumercindo Tourinho Filho, que se elegeu deputado estadual pelo PSDB em l994.
Nestas eleições de l986, dois candidatos se inscreveram, mas desistiram de disputar as eleições. Um era o jornalista José Elcias Lustosa da Costa, do PDT, que pretendia disputar uma vaga na Câmara Estadual. O outro era o radialista João Inácio de Souza Martins Filho, o João Inácio Júnior, que iria disputar uma vaga a deputado estadual pelo PMDB.
Dos sessenta e nove proprietários de emissoras de rádio que se candidataram, dos quais nove eram radialistas ou exerciam funções ligadas à profissão (15), quarenta e três foram eleitos e um deles era também radialista, Moésio Loyola, dono da Rádio Assunção, sendo que dois assumiram cargos administrativos na área de Comunicação à frente do grupo Rádio e Jornais do Ceará S.A., a Rádio Dragão do Mar, exercendo eventualmente as funções de radialistas. Eles eram os irmãos César Cals de Oliveira Net (16) (PDS), eleito deputado estadual em l982 e deputado federal em l986 e Marcos Cals de Oliveira Filho, eleito deputado estadual em l986 e deputado federal em l990, e novamente deputado estadual em l994. Um ex-proprietário de emissora de rádio, a Rádio Dragão do Mar, inclusive, Moisés Pimentel, foi eleito deputado estadual em l982 e reeleito em l986.
Houve algumas situações classificadas como especiais no que se refere à condição dos candidatos. Em l982, Carlos Virgílio A. de M. Távora, foi eleito deputado federal pelo PDS com 91.257 votos, ficando em segundo lugar no partido. Filho de Virgílio e Luiza Távora, Carlos era herdeiro dos dois, acionistas da rádio Uirapuru. Em l986, Carlos Virgílio seria reeleito deputado federal, com 45.673 votos, sendo o décimo terceiro candidato mais votado do PDS. Carlos Virgílio ainda seria reeleito deputado federal em l990, com 38.235 votos, sendo o décimo colocado no PDS e o décimo nono candidato mais votado no cômputo geral. Em l994, Carlos Virgílio sairia melancolicamente da política, obtendo apenas 301 votos para o cargo de deputado federal, concorrendo pelo PPR.
Outro político beneficiado pela proximidade com os meios de comunicação foi o próprio candidato eleito ao governo do Estado, Tasso Jereissati, pelo PSDB, com 1.407.693 votos, casado com Renata Queiroz, uma das herdeiras do Sistema Verdes Mares de Comunicação, um conglomerado de emissoras de rádio (espalhadas por todo o país), uma emissora de televisão (TV Verdes Mares - Canal 10) e um jornal, o “Diário do Nordeste”, em Fortaleza.
1.4 - A Influência das Injunções Partidárias na Eleição dos Radialistas
Embora o enfoque central do trabalho seja a prática política através do rádio, não se ignora que inúmeros outros fatores também contribuíram para o êxito desses radialistas na política. As injunções de ordem partidária, por exemplo, foram essenciais em muitos casos. Cid Carvalho vinha tentando se eleger desde 1978, quando se candidatou a deputado estadual pela ARENA. Em 1982, ele tentou novamente se eleger deputado estadual pelo PDS sem sucesso. Como na eleição de Cid Carvalho ao senado pela sigla do PMDB, com o apoio da cúpula do partido. À época, 1986, Tasso Jereissati foi eleito governador do Estado do Ceará pela mesma sigla, fator decisivo na vitória de Cid Carvalho ao senado.
Houve outras situações também em que a vinculação do candidato radialista ao partido favorito ou da situação resultou em surpresas: foi o caso da derrota de Narcélio Limaverde, que era o vice de Paes de Andrade (PMDB), para Maria Luiza Fontenele, candidata do PT, convertendo-se na grande surpresa eleitoral nas eleições para as prefeituras das capitais brasileiras em 1985. Em 1986, ele seria eleito pelo PMDB o deputado estadual mais votado no Ceará. Tão rápido quanto subiu caiu em 90, quando se candidatou pelo PSDB, na coligação Geração Ceará Melhor, obtendo apenas 2.709 votos contra os 36.468 votos que obtivera em 86. Tasso Jereissati, presidente do PSDB, não lhe perdoou o apoio prestado a Paes de Andrade, que concorria ao senado pelo PMDB, e era antigo companheiro de Narcélio, quando pertencia ao PMDB. Sua candidatura foi literalmente “fritada” pela cúpula do PSDB.
Gomes Farias iniciou sua carreira política em 1982, elegendo-se deputado estadual pelo PMDB, sendo o terceiro candidato mais votado no partido. Ele ingressou no partido em 31 de agosto de 1981, a um ano das eleições. Em 86, ele se reelegeria, com 15.689 votos, sendo o quadragésimo candidato mais votado no cômputo geral. Em 90, ao se transferir para o PSDB, ele obteve 10.851 votos, sendo o trigésimo quinto candidato mais votado no partido e caindo para 64° candidato mais votado no cômputo geral. Em 94, retornando ao PMDB, disputando uma vaga para deputado estadual, pelo PMDB (17), na coligação PPR/PMDB/PFL/PP/PSD, ele obteria 12.971 votos, mas não conseguiu se reeleger. Em 96, Raimundo Gomes Farias disputaria uma cadeira na Câmara dos Vereadores, novamente pelo PMDB, com 2.808 votos, não conseguindo se reeleger.
Luiz Ximenes foi eleito deputado estadual pelo PRN, com 11.869 votos, em 1990, sendo o primeiro candidato mais votado no partido e o qüinquagésimo segundo no cômputo geral. Em 94, ele se reelegeria pelo PSDB com 17.704 votos. Seu grande sonho era ser prefeito de Canindé, município cearense.
Almino Menezes foi eleito, pela primeira vez, em 1982, pelo PMDB, com 15.454 votos. Foi o nono candidato mais votado a deputado estadual no partido. Filiou-se ao PMDB um ano antes da eleição, em 15 de julho de 1981. Em 86, obtendo 9.105 votos, ele não conseguiu se reeleger deputado estadual pelo PMDB. Em 92, já no PSDB, ao qual se filiou em 4 de janeiro de 1992, ele foi derrotado se candidatando à Câmara de Vereadores, obtendo 188 votos. Em 94, quando voltou a se candidatar, ele obteve apenas 3.601 votos, concorrendo pelo PSDB a uma vaga na Câmara Federal, na coligação PDT/PTB/PSDB.
Tadeu Nascimento ingressaria na política em 1992, pelo PSDB, ao qual se filiou em 6 de dezembro de 1991, atendendo a um convite pessoal do então governador Tasso Jereissati, que havia sido eleito governador do Estado do Ceará em 1990 pelo PMDB, criando pouco tempo depois seu próprio partido: o PSDB. Ele obteve 2.293 votos, sendo o trigésimo terceiro candidato mais votado. Em 96, ele não conseguiu se reeleger vereador, disputando pelo PPS, obtendo 768 votos.
Moésio Loyola se candidatou a primeira vez pelo PMDB, obtendo 14.410 votos, não conseguindo se eleger. Em 1990, candidatando-se pelo PSDB, ele seria eleito com 23.963 votos, sendo o terceiro candidato mais votado no partido e o quarto no cômputo geral. Sua filiação foi feita em 7 de março de 1990, a poucos meses da eleição. Em 94, Moésio Loyola seria reeleito pelo PSDB, com 42.617 votos, sendo o quarto candidato mais votado no cômputo geral
Nesse aspecto em particular, Edson Silva tinha brilho próprio, já que a disputa por um partido político com poucas chances de conduzi-lo à vitória, o PDT, levando-o à sua primeira vitória, em 1986, para a Assembléia Legislativa. Já em 90, após a derrota para Ciro Gomes por cinco mil trezentos e dezessete votos na disputa da prefeitura de Fortaleza através da sigla PDT/PC do B, fez com que ele se aproximasse do PSDB, partido criado por Tasso Jereissati e por onde Ciro Gomes se candidataria, tornando-se governador do Estado do Ceará. Em 1990, Edson Silva chegaria ao Congresso Nacional, elegendo-se deputado federal pela coligação PSDB/PDT/PDC.
Ao tentar um retorno à oposição, em 1992, disputando a prefeitura de Fortaleza como vice na chapa de Lúcio Alcântara pela coligação PDT/PMN/PSB/PV/ PC do B, Edson Silva foi mais uma vez derrotado. Já em 94, ele ficaria na sexta suplência, ao disputar as eleições pela coligação PDT/PTB/PSDB, chegando a assumir a suplência em 1996.
1.5 - Os delegados do ouvinte
A eleição do radialista “esportivo” Gomes Farias para a Câmara Estadual, em 1982, e sua reeleição em 1986, foi uma comprovação da relação de proximidade que o rádio estabelece entre o ouvinte e o radialista. O Clube do Torcedor deu a Gomes Farias uma intimidade ainda maior com o ouvinte, conferindo-lhe mais familiaridade e simpatia. O “rebanho” eleitoral esportivo estava configurado no controle informatizado e a audiência garantida pela realização de promoções e distribuição de presentes. A deferência especial na data do aniversário mostrava ao ouvinte que ele era especial, pois, mesmo que sua família não se lembrasse dele, a grande “família” esportiva do rádio não esquecia uma data que tem um significado individual tão grande.
Assim como Gomes Farias, Almino Menezes conquistou amplo respaldo popular através do “Clube da Vovó”, conseguindo se eleger deputado estadual também nas eleições de l982. A ascendência de Almino ultrapassou os limites do controle através do cadastro de “sócios” pela emissão de carteirinhas e o preenchimento de fichas. Na verdade, através da distribuição de prêmios e da realização de festas de confraternização anuais, Almino começou a ser visto como um verdadeiro benfeitor, que assistia àqueles a quem teoricamente não lhe podiam dar nada em troca: pessoas idosas, muitas das quais não tinham mais nem a obrigação de votar. Só que, como ele mesmo afirma, não eram só os velhinhos que integravam o “Clube da Vovó” mas os desassistidos de uma maneira geral e aqueles que admiravam o trabalho que ele realizava.
A prestação de serviços consubstanciada radiofonicamente na crônica diária que abordava assuntos de interesse daqueles que tinham dificuldade em fazer valer seus direitos de cidadão ia transformando, aos poucos, o radialista Almino no defensor dos ouvintes fracos e oprimidos. Almino, com seu prestígio de radialista, projetava para os milhares de ouvintes que acompanhavam seu programa a mão estendida, disposta a ajudar, a defender, e, sobretudo, a promover o respeito por aqueles a quem a sociedade tem tão pouca atenção: os integrantes da terceira idade.
O prestador de serviços era mais que o amigo ou companheiro. No caso específico de Almino, ele era o “pai” protetor, aquele que erguia a mão e a voz em defesa dos despossuídos, providenciava-lhes até a assistência social através de atendimento médico gratuito pelo I. A. Social, distribuía bolsas de estudo e, ainda, distribuía cadeiras de roda, presentes diversos e até promovia grandes festas de confraternização entre a grande família de desprotegidas e indefesas pessoas.
O radialista alçado à condição de “delegado do ouvinte” prova cotidianamente, no exercício de sua profissão, e no seu contato direto com o povo através do rádio, que efetivamente é capaz de fazer, de transformar, de resolver os problemas para os quais o povo sozinho não encontra solução ou não se sente “capacitado” para resolver. Mais do que em qualquer lugar, no rádio acaba-se convertendo efetivamente em “dizer é fazer”, pois um radialista prestador de serviços, como Almino Menezes por exemplo, ouve a queixa do ouvinte, coloca-o em contato com a autoridade que pode solucionar o problema ou faz ele mesmo esse contato e dá o retorno da resolução daquela queixa do ouvinte, comprovando sua competência para exercer o mandato que o povo lhe concedeu de atuar como seu “delegado”.
Nesse quadro de radialistas que ingressaram para a política através do rádio, Cid Carvalho teve algumas diferenças em sua trajetória em relação aos seus colegas. Enquanto os outros radialistas eleitos apresentavam programas personalizados, com linguagem coloquial, atuando basicamente num único veículo e usando o clientelismo-assistencialismo como uma de suas práticas, Cid Carvalho tinha um programa onde se usava uma linguagem erudita que ele mesmo saía traduzindo, utilizando um discurso erudito, sem apelar para o clientelismo-assistencialismo, mas com uma forte personalização. Seu forte, no rádio, na TV e no jornal era a opinião, o comentário personalizado, onde sua marca individual era inconfundível.
Cid Carvalho, que ingressou no Senado Federal em 1986, era advogado, professor, e, através do rádio, aproximava-se do ouvinte que podia sentir, de forma ainda mais intensa, seu desconhecimento, seu despreparo para enfrentar um mundo com regras pré-estabelecidas tão duras, tão inflexíveis. Como se conduzir no mundo, como evitar a violência. Cid lhes falava de um mundo próximo demais que se tornava magicamente irreal, ao ser narrado pelo radialista. Ele se preocupava, sobretudo, em traduzir a linguagem jurídica, orientando os ouvintes quanto a procedimentos em casos policiais ou junto à justiça. A narração de fatos policiais ocorridos, muitas vezes, na esquina de onde muitos ouvintes habitavam pareciam transportar estes acontecimentos para uma dimensão fora do tempo e do espaço.
Já Edson Silva, eleito deputado estadual em 1986, se propôs, desde o início de sua carreira como radialista policial, a fazer um tipo de programa diferente daqueles que eram feitos. Ele propunha discutir a realidade do povo mas de forma respeitosa, estabelecendo uma empatia com o povo, colocando-se na pele de quem era acusado, “sofrendo” as dores dos familiares afetados pelo comportamento do elemento que degenerara no caminho do crime.
Esse comportamento de identificação com a alma popular e com os valores do ouvinte tornava Edson Silva um homem do povo e que trabalhava em prol da sua defesa e respeito. Esse tipo de reconhecimento popular não se adquire rapidamente no rádio. São necessários anos e anos, para criar uma imagem, consolidá-la e adquirir a credibilidade e a admiração populares. Mas, uma vez consolidado, o processo é irreversível e o comunicador tem seu ingresso na política como uma injunção popular. Assim como se fosse chamado a cumprir uma missão da qual não se pode furtar. O comunicador “missionário” abre mão até de sua própria vida, devotando-a em defesa de uma causa. Para Edson Silva, o respeito aos direitos e a dignidade do ouvinte eram a linha condutora de seu trabalho no rádio.
Narcélio Limaverde, também eleito deputado estadual em 1986, passou a ser aquele homem na cidade que recebia todas as reclamações, uma espécie de radialista “ouvidor”. Até o próprio governador do Estado à época lhe telefonava, de vez em quando, reclamando críticas feitas por Narcélio a sua administração.
Alguns comunicadores vão até um pouco mais longe, exercendo determinadas funções que são de responsabilidade do Estado. Narcélio Limaverde, por exemplo, usava o espaço de seus programas, levando-os ao vivo às praças, onde funcionavam quiosques previamente providenciados que viabilizavam a expedição de carteiras de identidade, carteiras profissionais, títulos de eleitor, além da prestação de outros serviços aos quais, de outro modo, certos segmentos da população dificilmente teriam acesso. Além do programa de Narcélio, há outros programas que contam com a bolsa de empregos, onde empregados se oferecem, para prestar serviços e determinadas atividades também são divulgadas.
Para Moésio Loyola, o radialista “compadre”, eleito deputado estadual em 1990, fazer rádio é uma forma de aumentar os laços de solidariedade com as pessoas, tornando o comunicador praticamente membro da família. Amigo dos esportistas e dos velhinhos, Moésio é visto por muitos como aquele “compadre” que se deu bem na vida, exemplo de self made man, que não era ninguém e hoje é um homem respeitado e prestigiado. Essa empatia acaba por estabelecer um grande nível de confiança, amizade e camaradagem, que facilitam que suas idéias sejam aceitas com facilidade pelos seus ouvintes.
Já Luiz Ximenes, que também foi eleito deputado estadual em l990, não teve suas bases na capital, mas sobretudo no interior, onde fazia programas que ele mesmo denominava de “comunitários”, fazendo assistencialismo através do rádio sem nenhuma reserva e tratando os ouvintes como futuros eleitores, tendo na força do rádio seu principal cabo eleitoral.
Tadeu Nascimento que chegaria à Câmara de Vereadores em 1992 deve ao radialismo policial sua eleição. Começou no rádio e transportou-se para a televisão, apresentando programas policiais, simultaneamente, no rádio e na televisão. Desenvolvendo um estilo próprio, Tadeu revelou todo seu carisma, tornando-se um dos radialistas mais conhecidos em toda a cidade. Transformou-se, efetivamente, no “delegado” do ouvinte.
Tadeu Nascimento é um exemplo de como os radialistas melhor sucedidos no rádio ganham como prêmio o acesso à televisão, onde sua projeção cresce extraordinariamente. E, na maioria das vezes, esses comunicadores utilizam o rádio e a televisão de forma associada, o que faz crescer ainda mais o poder de penetração junto à população. As bases da campanha política vão sendo, aos poucos, consolidadas através da utilização deste dispositivo. As imagens sonoras transformam-se em imagens visuais, ganhando novo tratamento estético de acordo com as características próprias do medium televisão, transpondo, simultaneamente, as características próprias do rádio, tornando a fórmula criada praticamente infalível no que se refere ao êxito como produto comercial. Do rádio, conserva-se o discurso carregado de emoção, de conteúdo apelativo, dramático e isso se traduz em imagens e num relato jornalístico onde imagem e som estão carregados dessa crueza e do estilo próprio de cada comunicador produzir o material comunicativo.
As semelhanças entre os radialistas que ingressaram na política são maiores que as diferenças. Todos indiscriminadamente se caracterizam pela prática de um estilo intimista, embora com peculiaridades, usam uma linguagem coloquial, estimulam a identificação e o respeito populares, incitam o povo a exercer sua cidadania e não se furtam ao esquema clientelista-assistencialista, com a distribuição de brindes e presentes, orientação para a resolução de problemas e, em alguns casos, assumindo o papel de solucionar ele mesmo determinado problema ou conflito na comunidade.
Radialista “companheiro”, radialista “justiceiro”, radialista “ouvidor”, radialista “pai”, radialista “missionário”: foram inúmeros e variados os caminhos que levaram vários radialistas a ingressarem no campo da política. Desenvolvendo estilos próprios, utilizando linguagens bem peculiares a cada modalidade do radialismo, eles se foram consolidando como os “delegados” do ouvinte, no exercício diário do fazer rádio. Íntimos do ouvinte como poucos políticos profissionais ousaram e conseguiram ser junto ao seu eleitorado, esses radialistas transpuseram o limite entre o exercício de sua atividade profissional, ingressando em outro território que, para alguns deles, revelou-se hostil e traiçoeiro.
Muitos não conseguiram, ao se afastarem de seus ouvintes, dar continuidade à carreira política e ainda perderam terreno junto a seus ouvintes cativos. Para a maioria deles, o exercício da política revelar-se-ia uma grande ilusão, alimentada, talvez, pela própria prática profissional, capaz, muitas vezes, de “simular” a resolução dos problemas da vida real, colocando o radialista no papel de intermediário entre o ouvinte e as autoridades oficialmente constituídas, como num passe de mágica. Fora do ar e longe dos refletores, a realidade da vida política seria bem diferente e poder-se-ia revelar bem diversa do mundo mágico forjado pelos media.
1.7 Os delegados do eleitor
Há inúmeros radialistas que viveram ou vivem nos bairros periféricos dos grandes centros. Habitantes da periferia, eles se aproximam e entendem as necessidades e interesses do povo, sem que isso signifique necessariamente que, uma vez eleitos, eles continuem fiéis às necessidades gerais e não aos seus interesses próprios. O compromisso com o ouvinte no campo radiofônico não garante uma atuação similar do radialista no campo político. Alguns valeram-se do assistencialismo, para criarem nos ouvintes a ilusão de que só dentro da política os radialistas poderiam ajudar muito mais o povo. Essa idéia mostrou-se essencialmente falsa. A grande maioria dos radialistas aqui estudados, com exceção de Cid Carvalho, não conseguiu fazer praticamente nada do que havia prometido, nem mesmo no plano do assistencialismo quanto mais no que se refere a uma contribuição ao exercício de uma cidadania plena ou uma ampliação do nível de consciência política e de organização dos seus ouvintes cativos.
Muitos radialistas que se elegeram num primeiro mandato e não obtiveram a reeleição desobedeceram a um princípio fundamental que é o de continuar ligados às bases mesmo após as eleições. Alguns abandonaram seus programas de rádio logo depois de eleitos. Para os eleitores que não sintonizam mais o radialista-político nas ondas do rádio, ele acaba sendo aquele que fez promessas de colocar seu mandato a serviço do bairro e simplesmente desapareceu após eleito. Para manter a sintonia com seu eleitorado, o radialista não pode abandonar inteiramente o rádio e, se o fizer, tem que encontrar outra forma de fazer chegar ao povo o resultado do seu trabalho como parlamentar, sob pena de perder a legitimidade e o mandato de “delegado do ouvinte”.
Para muitos radialistas que se transformaram em políticos o exercício da política convencional se mostrou inviável em função do despreparo pessoal, do desconhecimento das regras vigentes no campo político, da inexperiência, resultando em frustração e no afastamento do campo profissional, criando muitos problemas para os que não conseguiram a reeleição. Para alguns radialistas, a impossibilidade de dar prosseguimento a uma carreira política recém-iniciada, significou a necessidade de recomeçar o caminho de reconquista de um novo contingente de ouvintes no plano da comunicação, num terreno cada vez mais competitivo e limitado.
Um dos fatores que justificam o distanciamento entre a atuação do radialista no campo radiofônico e a atuação do radialista que ingressa no campo político é a impossibilidade de atender às expectativas do povo de forma instantânea como acontecia no rádio. Quando o radialista se torna político, ele tem que se adequar às regras do processo político, que é extremamente burocratizado, lento, arrastado e trabalha numa perspectiva mais genérica, sem condições de atender às pessoas individualmente. Outro fator é que, uma vez no interior do campo político, outros interesses surgem e preponderam. Os interesses pessoais do radialista recém-eleito também passam a contar. Aquele atendimento personalizado que era possível no rádio, na maioria das vezes através do telefone ou do contato interpessoal, torna-se mais difícil com o ingresso do radialista na política formal. O ouvinte, transformado em eleitor, tem que se deslocar de sua casa, dirigir-se ao gabinete do parlamentar, sem saber ao certo se vai encontrá-lo, se vai ser bem recebido, etc. Depois, a possibilidade de ver seu pedido atendido ou encaminhado parece infinitamente mais distante de ser contentado pelo político convencional do que pelo próprio radialista.
O espaço radiofônico parece ser um fórum privilegiado de poder, onde transitam ouvintes e autoridades diante da população exatamente como num filme, ou num desfile. O programa radiofônico adquire status de espetáculo, onde a atuação do ouvinte e da autoridade são projetadas socialmente. Quando o radialista, fora do rádio, e dentro da esfera política, tenta estabelecer a mesma sintonia do seu eleitor com a autoridade que poderia resolver seu problema, não é a mesma coisa. A autoridade, ao resolver ou encaminhar determinada questão, não está mais no palco, sob a luz dos refletores, não fala ao microfone, não é ouvida por uma multidão, não tem a mesma motivação em atender a um pedido, se seu nome não vai aparecer, não vai ser projetado, como acontecia no rádio. O atendimento de um pedido é tarefa infinitamente mais difícil. O radialista político decepciona o ouvinte que se transformou em eleitor. A magia é quebrada. O radialista já não pode tudo. Não é mais aquele ídolo que as ondas eletromagnéticas do rádio criaram. Agora, ele parece vulnerável, sem saber como se conduzir ou a quem se dirigir para a resolução de problemas que antes ele decidia facilmente.
Além disso, o radialista tem outras atribuições e interesses, necessita participar do jogo político, precisa estar atento à sua imagem que é projetada através dos media, necessita observar as movimentações no interior do seu partido. A sua energia que antes era concentrada no ouvinte e em suas expectativas agora acaba sendo dividida entre mil e um interesses. Essa divisão o enfraquece e o risco de fracassar é enorme, caso ele não compreenda e não se adapte logo às novas estruturas onde deve deslizar. O maior desafio é o lugar do ouvinte-eleitor, que só lhe permanecerá fiel se for de algum forma atendido, respeitado, ouvido e tiver suas expectativas preenchidas. Como não perder o contato com o ouvinte-eleitor? O radialista, uma vez eleito, jamais se deve afastar do rádio.
O fracasso da representação dos “personagens” criados pelos radialistas foi praticamente total. Quando saíram do campo radiofônico e ingressaram no campo político, a maioria dos radialistas aqui estudados simplesmente não conseguiu ser fiel ao “personagem” que havia sido criado no plano radiofônico. Alguns deles ainda tentaram conectar os dois campos, usando o rádio como tribuna e espaço, para ouvir os pedidos e as denúncias do ouvinte e o gabinete, na Assembléia ou na Câmara de Vereadores, para a extensão de sua prática assistencialista, bem distante de procedimentos que pudessem estimular o fortalecimento da cidadania e do nível de organização política de seus ouvintes.
Narcélio Limaverde, o radialista “ouvidor”, continuou ouvindo as denúncias e reivindicações de seus ouvintes, mas como “delegado do eleitor” ele não se saiu muito bem na Assembléia Legislativa. Narcélio se sentiu deslocado na cena política, sem conseguir criar canais de ampliação do seu trabalho de “ouvidoria” junto à sociedade civil, o que lhe teria dado a força e a legitimidade necessárias para uma atuação combativa no plano político, como a que ele se propunha realizar. A impossibilidade de atender aos compromissos, a não ser a prestação de alguns favores a determinados eleitores e sua postura independente no campo político, destruíram seu futuro como parlamentar, comprometendo, simultaneamente, seu prestígio no campo radiofônico.
Moésio Loyola foi um caso típico da instrumentalização da política como extensão de interesses pessoais. Proprietário da emissora de rádio Assunção AM e o chefe de uma equipe esportiva responsável pelo maior faturamento e audiência da rádio, Moésio não hesitou em usar a sua condição de deputado, para apresentar projetos, na área esportiva, que beneficiassem seus principais clientes, os clubes locais. A camaradagem, o estreitamento dos laços de solidariedade, desenvolvidos pelo radialista na construção de seu personagem no campo radiofônico, o radialista “compadre” desintegrou-se no campo político. Talvez seu único vestígio haja sido a manutenção da prática assistencialista no qual escritório da emissora e gabinete na Assembléia tornaram-se extensões, sendo procurados por dezenas de eleitores e correligionários.
Outro fracasso retumbante foi o do radialista “missionário”, cuja missão deveria ter sido restrita ao campo radiofônico, o que lhe teria assegurado maior êxito. Na Assembléia Legislativa, Edson Silva não conseguiu aprovar praticamente nenhum projeto de interesse popular, embora houvesse se esforçado por isso. No campo radiofônico, após sua eleição, o tipo de contato que ele estabelecia com o ouvinte também se diferenciou. O delegado do ouvinte transformado em delegado do eleitor passou a usar o campo radiofônico mais como como tribuna e como canal de publicização de sua atuação como parlamentar do que espaço das reivindicações e interesses populares. O sólido trabalho realizado no campo radiofônico permitiu-lhe inclusive repousar um pouco sobre o capital político adquirido em anos e anos de contato íntimo estabelecido com o ouvinte.
Tadeu Nascimento que, no exercício radiofônico, era tão preocupado com o exercício da cidadania também não fugiu à regra. Uma vez no interior do campo político não conseguiu traduzir em realizações os compromissos assumidos com os ouvintes. Seu desempenho, no campo político, embora desenhasse, em alguns projetos, uma tentativa de respeito aos direitos dos cidadãos, principalmente da grande massa de excluídos sociais, não obteve projeção ou impacto sociais. Como os outros radialistas que se transformaram em políticos, não conseguiu desempenhar o papel de delegado do eleitor em conformidade com as expectativas alimentadas pelos ouvintes e telespectadores que votaram nele.
O “pai dos pobres”, o radialista potencial, o defensor dos velhos e oprimidos, também não conseguem realizar, no campo político, aquilo que haviam estabelecido com os ouvintes no campo radiofônico. O gabinete e o estúdio de rádio, na falta de outras realizações, tornam-se espaços comuns da prática assistencialista, da distribuição de favores, migalhas para contentar os ouvintes-eleitores, a quem Almino não estimulava o desenvolvimento de uma cidadania plena mas, apenas, a humilhação da mão estendida.
A única exceção, nesse grupo de radialistas estudados, foi o senador Cid Carvalho. A imagem do herói, de defensor dos fracos e oprimidos no campo radiofônico, traduziu-se em algumas dezenas de leis, pronunciamentos e participações em CPIs que resultaram numa produção realmente voltada para os interesses populares; reconhecida, inclusive, por instituições defensoras dos interesses do povo. Cid Carvalho como delegado do eleitor encarnou o personagem radiofônico do “herói” integralmente no campo político, tendo o cuidado, inclusive, de registar tudo para a posteridade, numa extensa obra literária. Ao contrário dos outros, não recorreu ao assistencialismo, talvez em função de sua posição de distanciamento do cotidiano do ouvinte, por estar em Brasília, no Congresso Nacional.
Luiz Ximenes teve uma atuação tão inexpressiva que não se pode deixar de notar que sua presença, no campo político, deve-se sobretudo a uma necessidade de atender a seus interesses comerciais e políticos. Sua principal meta, no campo político, não era o atendimento dos interesses de seus ouvintes eleitores, mas “criar” condições para obter a concessão de uma emissora de rádio comercial, o que ajudaria a concretizar seu maior sonho que era se eleger prefeito do município cearense de Canindé.
Já Gomes Farias, o radialista ídolo, também não fugiu à regra. A Assembléia tornou-se uma extensão da troca de favores iniciada no campo radiofônico. Assim como os outros, Gomes Farias não conseguiu aprovar praticamente nenhum projeto de interesse popular, a não ser o fim do uso obrigatório do fardamento escolar na rede pública, reivindicação feita inclusive por seus ouvintes eleitores.
Com exceção de Cid Carvalho, os demais radialistas fracassaram, ao transitarem do campo radiofônico, na qualidade de “delegados do ouvinte”, para o campo político como “delegados do eleitor”, fortalecendo o assistencialismo. Estúdio de rádio e gabinete na Assembléia ou na Câmara dos Vereadores tornaram-se extensões um do outro, onde ouvintes e eleitores iam à procura do atendimento das mais diversas necessidades e interesses. Pouquíssimos projetos foram aprovados, sem que os radialistas conseguissem obter projeção política, ou mesmo trabalhassem para mobilizar outros segmentos da sociedade civil, contribuindo para aprofundar o nível de organização social e assegurando-lhes o exercício de uma cidadania plena, de acordo com os compromissos assumidos durante a campanha.
Notas:
(*) Síntese dos capítulos 3 e 4 da tese de Doutorado intitulada “Rádio e Política: do Microfone ao Palanque – os Radialistas Políticos em Fortaleza (1982-1996)”, defendida em 17 de junho de 1998 no Programa de Pós-Graduaçâo em Sociologia da Universidade Federal do Ceará
(**) Doutora em Sociologia e Professora do Departamento de Comunicação Social e Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará
1. Informações fornecidas pelo Departamento de Outorga do Ministério das Comunicações em Brasília em 12/12/96.
2. Dados fornecidos por João Lara Mesquita, da Rádio Eldorado de São Paulo no Painel II - “Voz do Brasil Sim ou Não?”, no I Seminário Internacional de Radiojornalismo, São Paulo, 28 a 30 de maio de 1996.
3. De um total de 147 milhões 96 mil e 583 habitantes, 125 milhões 50 mil 386 possuíam aparelhos de rádio em seus domicílios, sendo que 100 milhões 810 mil 733 na zona urbana e 24 milhões 239 mil 653 na zona rural. Fonte - IBGE, Diretoria de Pesquisas, Departamento de Emprego e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1995 - IBGE. Os dados referente ao número de domicílios e de habitantes não incluem os dados da zona rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.
4. Dados computados até 2 de julho de 1996.
5. Dados fornecidos pelo IBOPE em novembro de 1996.
6. A rádio CBN divulgava só notícias, antes de se transformar na rádio O POVO CBN.
7. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - 1995 - IBGE.
8. De um total de 6 milhões 664 mil 399 habitantes, cerca de 5.491.69l possuíam rádios em suas casas, sendo que 3 milhões 638 mil 169 estavam na zona urbana e 1milhão 853 mil habitantes na zona rural.
9. Exclusive os rendimentos dos moradores cuja condição no domicílio era pensionista, empregado doméstico e parente do empregado doméstico.
10. Dados fornecidos pelo IBOPE em novembro de 1996.
11. Aécio de Borba não defendia as reformas de base de João Goulart, sendo, ao contrário, um representante do IBAD no Ceará. Moisés Pimentel explica que a coligação com Aécio de Borba (PL) deveu-se ao fato de este ser um nome conhecido e de respaldo junto ao público cearense e, com tais qualidades, uma aproximação política tornou-se necessária a um partido que então se lançava. Na Rádio Dragão do Mar, Aécio de Borba exerceu uma função eminentemente administrativa e comercial. Conforme ele próprio justifica, suas posições políticas “não afetavam a linha editorialista da emissora” (FONTENELLE, 1992: 62).
12. A Rádio Dragão do Mar desenvolveu uma campanha sistemática de defesa da candidatura do marechal Lott e João Goulart à Presidência da República em 1960, mas não teve de enfrentar nenhum episódio intrigante como nas eleições de 1958. E Fortaleza foi a única capital onde o candidato da coligação PSD-PTB conseguiu vencer as eleições. (FONTENELLE, 1992: 55)
13. Desse total, três radialistas se reelegeram pelo menos duas vezes: Edson Silva: deputado estadual em l986 e deputado federal em 1990; Gomes Farias: deputado estadual em 82, reeleito em 86; e Luiz Ximenes, eleito deputado estadual em 1986, reeleito em 1994.
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