html>COMUNICAÇÃO & POLÍTICA & CULTURA - JORGE ALMEIDA

 

V a r e j o

 

José Luiz Braga (1)

 

Introdução

Desde há muitos anos sou leitor assíduo das colunas de notas do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo (Informe JB e Painel, respectivamente). Leitor-consumidor, no sentido pré-analítico de simplesmente fruir dessa leitura, só recentemente me ocorreu o interesse de fazer das colunas objeto de observação sistemática e analítica. Nessa mudança de modo de interação com o objeto, as perguntas imediatas que se colocaram foram as seguintes:

a) que jornalismo é esse, que resulta nessa estruturação específica do "fato jornalístico"?

b) que política é esta, aí referida?

A primeira resposta impressionística que decorre destas questões é a de perceber um nível menor, de varejo, em que são percebidas e apresentadas, tanto a política referida, como as colunas que dela tratam. O que caracteriza as notas é (além de sua rapidez - duas ou três frases, às vezes uma só) um tom leve, às vezes irônico, os fatos ou falas contados de modo direto, e a seleção e construção voltados para um objetivo de assinalar o pontual, o destaque, o pitoresco. De certa forma, as colunas de notas abordariam os fait-divers da política, em uma perspectiva próxima da "fofoca".

A impressão de fofoca seria dada pelo tom ligeiro das notas, pela freqüente referência a personagens, mais que a suas idéias; pela ênfase no "petit événement", mais que nos complexos problemas políticos do país. A aplicação desse rótulo a qualquer instância de comportamento, fala ou texto, tende a ser diminuidora. A própria palavra tem uma sonoridade que, associando forma e sentido, se presta ao ridículo - aliteração do "f", sons agudos repetidos, final em "óca".

A fofoca é tida como comportamento provinciano, de quem não tem o que fazer. Mas é possível perceber, que numa forma ou noutra, permeia todo o tecido social como um componente merecedor de análise antropológica (que certamente existe, mas seria alheia aos objetivos do presente artigo). Resta que, em política, parece se imiscuir, junto com os boatos, nos assuntos mais relevantes e graves.

Uma crônica de Machado de Assis (2) enfatiza justamente um voltar-se de atenções para os processos interlocutórios ocorrendo nas beiradas de uma mudança ministerial - e mostra como o interesse se concentra facilmente nos aspectos secundários e eventualmente interesseiros em torno da "crise", antes que na substância pública e racional desta - a tal ponto que não só o interesse se desloca para o que é secundário, mas é este que adquire foros de "fato" observável e noticiável.

Fora a acusação de que a imprensa em geral tenderia a preferir sempre o ângulo mais espetacular, a superfície ornamental sobre o âmago da questão - as notas, talvez não no teor específico de cada uma, mas no conjunto, saltando de um tema para outro sem aprofundar, parecem estruturalmente condenadas a merecer essa caracterização como um conjunto de fofocas. Nessa perspectiva, as colunas em estudo poderiam ser relacionadas a matérias como "Gente", da Revista Veja, ou certas colunas sociais, com que compartilham a formulação em nota curta. A diferença seria dada apenas pelo fato de que, aqui, os personagens são do mundo político e não do mundo do espetáculo ou da "sociedade".

Neste padrão analítico apressado, não há observação sistemática: trata-se apenas de uma reação interpretativa impressionística, para oferecer a resposta mais óbvia. Que deixa de resolver, entretanto, algumas questões que podem e devem ser feitas para cercar o objeto e nossas possíveis reações (de leitor) perante este.

Para viabilizar uma observação mais acurada, foram necessárias duas démarches complementares: organizar a leitura para além do gesto quotidiano de consumo; e reconstruir melhormente o problema, "afinar" as perguntas de partida.

A organização da leitura foi feita pela constituição de um corpus definido por um recorte temporal, abrangendo dois meses antes e dois meses depois do primeiro turno das eleições gerais de 1998. Esta decisão de abrangência não faz entretanto do estudo uma pesquisa referente a política eleitoral. Uma das razões da escolha foi a perspectiva de que ocorreria aí um particular enfoque político; outra, a intenção de observar a substituição de temas gerais de política para temas eleitorais e, ao final das eleições, destes por outros. Mas não havia uma preocupação de estudar o tratamento jornalístico especificamente dado a este assunto em especial (3).

O olhar sistematizado que deveria incidir sobre este corpus foi orientado pela construção de problema que passo a expor.

 

Construção do problema

O problema deriva da percepção de que o produto "colunas", como instância mediática voltada para temas políticos, estabelece relações entre o espaço de poder do estado (com seu entorno negociador e decisório, a política dos políticos); e o espaço pessoal privado (seja da ordem do individual, seja referente ao grupal, comunitário, profissional). A questão que se coloca para a análise é a de examinar a qualidade e as características do produto ao exercer este papel de intermediário entre as duas esferas.

Nesta instância, é possível então verificar (usar como critério de análise) se e como são especificamente ativadas potencialidades mediáticas para estimulação de atitudes, no leitor, referidas a padrões de debate público, de sociedade civil. Ou, ao contrário, se as démarches do produto (suas referências ao mundo político e seus processos verbais de elaboração) tendem a obscurecer o debate e subtrair de uma análise racional o espaço do poder. Em síntese: o produto tende a viabilizar leituras relacionadoras entre público e privado; ou tende a subtrair possibilidades de reflexão e argumentação racional, tratando a coisa pública como inacessível ou de acesso meramente por adesão (visibilidade sedutora)?

De posse desta questão (e sem tentar refazer a discussão sobre as possibilidades de esfera pública na mídia, ou na interação da mídia com outros espaços públicos e privados da sociedade), podemos fazer breve referência a algumas proposições pertinentes ao problema e direcionadoras da tarefa analítica sobre o produto.

O prof. Wilson Gomes (1998) assinala potencialidades da mídia, no que se refere ao debate racional: fornecimento de insumos para a formação de opinião; absorção e continuação de debates públicos iniciados em outras instâncias; exposição de fatos e coisas "do proscênio". Observa ainda que "a esfera de visibilidade pública mediática é, em si mesma, um conjunto volumoso e complexo de materiais que os seus apreciadores ou fruidores organizam, estruturam e compõem - em uma palavra, editam" (p.17).

Não é pertinente ao espaço do presente artigo debater se estas possibilidades são suficientes para assegurar à cena mediática o papel de uma verdadeira esfera pública. Mas é certo que, se pretendemos avaliar qualitativamente um produto específico, pode-se afirmar o valor positivo de tais caraterísticas - e verificar se o produto em questão possui estruturas que as envolvam.

Em um ângulo complementar para o problema, Cornelius Castoriadis (1997) preocupa-se com as relações entre a esfera da vida privada (oïkos); o poder público (ecclesia) como lugar público-público; e o lugar público-privado em que as pessoas se encontram e debatem - a sociedade civil (agora). O desaparecimento da esfera pública resultaria na separação completa entre os dois outros espaços. Para a adequada articulação entre as três, entre outras condições, preocupa-se com a preservação da agora (que evita que as decisões essenciais sejam tomadas "clandestinamente" pelo Estado); com a "autonomia política" (os humanos criando suas próprias instituições "em conhecimento de causa"); e com a autonomia individual. A política depende portanto, também, de um tal indivíduo "autônomo".

"Daí o papel enorme da educação e a necessidade de uma educação para a autonomia [...] que leve os que são educados - e não apenas as crianças - a se interrogar constantemente para saber se agem em conhecimento de causa ou antes carregados por uma paixão ou por um preconceito" (4).

Refletindo sobre as relações entre o mundo e as pessoas (e sem esperar destas todo a iniciativa de trabalho analítico-crítico) somos levados a nos perguntar sobre a potencialidade educativa das coisas públicas - entre estas, dos produtos mediáticos. O critério analítico básico é o de estimar o favorecimento de condições para o exercício do debate público e - no nível das pessoas - de autonomia do pensamento político. Devemos então verificar se um produto mediático tende a favorecer, ou ao contrário desestimular, competências voltadas para a "autonomia política". E - se for o caso - em quê, a partir de que perspectivas, como.

Como um texto jornalístico pode, minimamente, se oferecer à edição por seus leitores? A questão se refere à abertura para a racionalidade e para o debate (logo, à colocação de um "caso" jornalístico em perspectiva de esfera pública). Se o "caso" é simplesmente veiculado, exposto ("vendido") sedutoramente com sua lógica interna, escamoteando as interfaces em estrutura mais ampla, estará sendo oferecido "para consumo", em termos de visibilidade, mas estará, paralelamente, se escamoteando (ou tentando se manter impermeável) aos processos próprios do debate (racional, analítico, interpretativo) público.

Interessa-nos verificar se estes fatos e pessoas sedutores (e sedutores não porque necessariamente o sejam, como eventos, mas sobretudo porque são "literariamente" construídos como tal) - são (ou não) ao mesmo tempo direcionados, pela matéria jornalística, a uma hipótese de leitura interpretativa argumentada.

Para isso, devemos examinar o texto não apenas como matéria informativa sobre eventos caracterizáveis, estes, como "políticos". Mas também, perceber o processo político (geral) que opera nas notas e pelas notas. Ou seja: considerando como "política" não apenas a extremidade representada pela coisa informada; mas o processo comunicacional todo, desde os "fatos", passando por sua seleção e tratamento noticioso (verbal), e fazendo inferências sobre as possibilidades de sua leitura/interpretação pelo leitor.

Mais do que a política-dos-políticos (freqüentemente tratada nas notas), interessa-nos o processo político comunicacionalmente operado pelo jornal como intermediário e intercessor político, entre os agentes da esfera político-partidária-decisional e o cidadão-leitor-eleitor. Observo aliás que nem sempre o fato relatado pelas notas é diretamente político. Pode ser artístico, cultural, urbanístico, econômico, social, etc. Não ficando entretanto fora disso que podemos chamar de "o processo político das colunas de notas", e que devemos examinar.

Dadas estas perspectivas, é possível agora integrar as duas perguntas (a) e (b) da primeira página. Que processo político é construído por essa estruturação específica da atividade e do texto jornalístico - ou seja - que política é esta, não apenas mostrada, mas elaborada e construída nas colunas ?

Esta pergunta solicita a observação de algumas questões para uma abordagem operacional dos textos:

- em que estruturas específicas o texto se organiza;

- que "efeitos de texto" são aí produzidos;

- que marcas, no texto, permitem inferências sobre o seu processo de criação;

- que inferências se podem fazer sobre a "eficácia informativa", as negociações de sentido possíveis entre aqueles "efeitos de texto" e a leitura;

- e naturalmente como estas coisas se articulam na formulação de uma "política de comunicação do fato político ou cultural" - ou seja, que espaço de exercício político é construído pelas notas.

De posse destas questões operacionais, é possível então suspender temporariamente nossas impressões imediatas (sintéticas) em favor de uma observação propriamente analítica.

 

O funcionamento das colunas

As duas colunas ocupam um lugar similar nos dois jornais, em página par. Situam-se à esquerda das demais matérias da página, espaço reservado a notícias políticas nacionais.

A parte principal de cada coluna é composta de 10 a 15 notas curtas, organizadas em duas colunas de texto. Cada nota tem um título específico. No Informe JB, as notas são enquadradas, acima e abaixo, por dois outros tipos de formulação. Na parte superior (ocupando toda a largura, em coluna única) aparece um texto duplamente diferenciado: é mais extenso, ocupando aproximadamente o espaço correspondente a quatro notas; e tem uma estrutura verbal diferenciada, expositiva/argumentativa/interpretativa. Na parte inferior, ocupando aproximadamente a mesma superfície do texto inicial, um conjunto de notinhas mais curtas, sem título individualizado, organizadas em duas colunas de texto, que recebem o título coletivo de "Lance livre". Têm também um conteúdo diferenciado com relação às notas - apresentam informação geralmente de tipo "serviço" ou "agenda", referente a eventos, ou trazem informes rápidos sobre temas diversos não trabalháveis no estilo sofisticado das notas.

No Painel, as notas se iniciam desde a parte superior da folha. A última nota da coluna (na mesma dimensão e estilo das demais) é destacada por um título padrão ("Tiroteio") e separada da anterior por um fio. Trata-se sempre de um personagem político criticando uma situação ou outro político. Diferente do Informe JB (que é inteiramente textual), aparece no Painel, um desenho (caricatura/situação) que ilustra, comenta ou expressa a situação referida em uma das notas. Na parte inferior da coluna, aparece uma nota de maior extensão, que ocupa as duas colunas textuais. Esta nota mantém, além de um título específico por aparição, um título genérico, "Contraponto", reiterado diariamente. Trabalhado de modo mais extenso que as notas, desenvolve-se narrativamente, e conta um "caso", em torno de um político conhecido - ao estilo das histórias do "Folclore Político" de Sebastião Nery.

Em síntese, os componentes das duas colunas são: no Informe JB - o texto inicial - as notas - "Lance livre"; no Painel - as notas - ilustração - "Tiroteio" - "Contraponto". Deste conjunto, examinaremos essencialmente o texto das notas, que fazem a parte substancial e característica das colunas - e são básicos para a problematização adotada.

 

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O "fato" é contado diretamente a partir do "acontecido" - nenhuma possibilidade, pela dimensão do texto, de informar dados da circunstância (local, contexto político ou social, dia e hora, nexos causais, etc.) - referidos apenas quando se trate de informação diretamente relevante como componente nuclear do próprio fato. Apesar disso, a nota tem freqüentemente uma certa complexidade - despachada necessariamente em frases curtas e diretas - relacionando momentos diferentes ou posições, ou série de acontecimentos relacionados.

Informe JB - 27/08 - Força na Frente

Vicentinho está uma fera com o ministro Waldeck Ornellas.

> dado anterior que começa a construir a situação

Há quase 30 dias o presidente da CUT tenta, em vão, uma audiência para discutir aposentadorias insalubres.

> dado adicional relacionado (em contraponto) ao anterior

Mas a Força Sindical furou a fila do Ministério da Previdência e foi recebida para tratar do mesmo assunto.

> fala da pessoa apresentada no início, e que concretiza a reação lá exposta

Ou ele recebe todos, ou não recebe ninguém - diz Vicentinho.

> enfatiza a pessoa e sua reação

A estrutura impede então uma apresentação retórica dos motivos e da lógica das reações. As frases se relacionam mais por coordenação que por subordinação. É da própria contiguidade e sucessão que deriva a relação entre elas - de conseqüência, de explicação, de contraposição, etc. As notas do JB têm uma estrutura mais "telegráfica": frase-ponto-frase-ponto-frase. Além disso, cada sentença é destacada por mudança de linha e deslocamento de parágrafo, mesmo nas frases mais curtas (ver a nota observada acima). As notas do Painel são um pouco mais sinuosas. Sem destaque formal entre frases (a nota é sempre apresentada como um único parágrafo), estas são às vezes um pouco mais longas, e comportam ocasionalmente relações internas de subordinação, ou reflexões formalmente relacionadas.

Painel - 25/11 - Curioso

FHC deu a entender, em conversas reservadas, que está contrariado com Clóvis Carvalho e com Eduardo Jorge, que teriam participado do vazamento de trechos do grampo do BNDES. Ou sabia e está iludindo interlocutores. Ou seus auxiliares fizeram algo sem sua orientação.

O Painel usa, com certa freqüência, a tática de relacionar uma nota com a anterior, em seqüência. O relacionamento é dado pela continuidade temática e factual, e realçado pelos títulos, que se encadeiam. Por exemplo:

Painel - 12/09 - Passou a sensação...

O fato de FHC ter negado que subiria os juros na quinta e no final da noite ter sido desmentido pela equipe econômica causou constrangimento no comitê do presidente. Avalia-se que ele se expôs desnecessariamente.

Painel - 12/09 - ... de piloto sem controle

"Pega muito mal o presidente dizer que não vai sacrificar o povo com mais juros e isso acontecer horas depois. É uma comunicação burra, que pode ser usada pelos adversários no programa de TV", diz um membro da equipe da reeleição.

Mas apesar das diferenças formais entre as duas colunas, a estrutura básica é ainda a mesma: rapidez (direto ao ponto), contexto não explicitado, seleção que destaca e constrói um interesse "focal".

De um modo geral, a estrutura e os fatos relatados oferecem uma impressão de "informação de bastidores". Vemos várias razões para este efeito de texto. Os fatos selecionados são pontuais, reduzidos (não na sua importância, que pode ser grande) mas na sua "noticiabilidade". Ou o fato se esgota na pequena informação, ou parece ser um fato marginal relacionado a matérias em destaque no resto da "atualidade jornalística", não ocupando na lógica daquelas matérias uma construção de centralidade. O próprio fato de terem formulação curta propõe uma impressão de coisa entrevista rapidamente, como quem surpreende uma conversa de bastidores. Mas o que sobretudo gera o efeito "bastidores" é a estrutura textual determinada pela dimensão reduzida (estrutura referida acima): na ausência de indicações de local/hora/circunstâncias, o "fato" paira no ar, não podendo ser imediatamente referido a um momento/evento no qual se ancore - referência esta que daria o caráter "público" do fato ou do momento em que a coisa foi dita, a posição expressa.

O "caráter público" não exige que se trate de evento política ou socialmente amplo. Uma simples expressão do tipo: "Em entrevista a este repórter, Fulano de Tal mostrou-se preocupado com..." - tornaria automaticamente público o momento da fala. Sem marcas verbais deste tipo, o fato e as falas e posições parecem ocorrer nesse lugar indefinido, mas que por definição é "não-público" - bastidores. Veja-se como é produzido este efeito nas notas:

Painel - 30/10 - Tentam derrubar...

Covas aprecia e admira o estilo brigador de Rose Neubauer, secretária que remodelou a Educação no Estado. Mas ela virou problema na hora da composição da nova equipe. É atacada por prefeitos e aliados do governador, que a acham autoritária.

Painel - 30/10 - ...mas é difícil cair

Pessoa próxima a Covas diz que ele já sofreu todo o desgaste que poderia por conta das brigas que Rose Neubauer comprou na Educação. Agora, seria a hora de colher os frutos do projeto que foi implantado a fórceps. Aposta que ela vai ficar onde está.

Observa-se aqui, além da estrutura referida acima, a presença deste "pessoa próxima a Covas" que reforça o nível "não público" já construído na primeira nota.

Claro que tudo isso é efeito de texto. O evento ou fala são tornados públicos pelo simples fato de estarem em letra impressa no jornal. Mas ocorre aqui, pela ausência de marcas textuais (expressas) de publicização aquela impressão de um olhar lançado sobre um ângulo outramente não exposto (5) - e que oferece assim ao leitor uma impressão de acesso "um pouco além" do noticiável. Observo porém que embora "efeito de texto" e "impressão de acesso", não são coisas a serem descartadas como secundárias ou de mera retórica - pois de impressões, efeitos e retórica é que largamente se faz o fato político - como aliás fica evidente no caso referido há pouco em nota de rodapé (6).

Outra característica das notas - mesmo quando o fato se passa, textualmente "em cena", é que geralmente não se trata do centro da cena. O centro da cena está ocupado pelos "assuntos sérios" - ou seja, definidos como tal na agenda mútua imprensa/campo político-social e, por definição, mostrados nas reportagens e colunas de opinião. Nas beiradas desta seriedade (com os mesmos personagens, ou como componentes marginais dos fatos) coisas acontecem ou são ditas sem receber as luzes principais de cena.

Nesta perspectiva, o olhar viabilizado pelas notas já não é sobre os bastidores, mas sobre a cena secundária. O efeito, também, é outro, mais próximo do conceito de fofoca, que coloca em cena o que seria - com base em determinados critérios - não encenável naquela cena. Ver por exemplo estas duas notas, quando se encerrava o período de campanha para o primeiro turno:

Informe JB - 02/10 - Desabafo

Em comício anteontem em Porto Alegre, Lula não conteve o impulso. "Normalmente, político não confessa que está cansado. Mas gente, tô quebradaço". E reconheceu: "Se pudesse falaria com vocês por telepatia".

Informe JB - 02/10 - Love Story

Final feliz na campanha paulista. No último programa eleitoral na TV, a candidata ao governo do estado, Marta Suplicy, olha nos olhos do marido, o senador candidato à reeleição, Eduardo Suplicy, e diz: "Eu te amo. Mas não é por isso que terá meu voto. É porque você é o melhor senador da República". Mirada lânguida, Suplicy responde: "Voto em você porque São Paulo precisa de olhar feminino". Casados há 34 anos, trocam um apaixonado beijo na boca.

 

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Outro tipo de fato político veiculado pelas notas são as falas. Afirmações, provocações, críticas, explicações - fornecidas por personalidades públicas, tornam-se ipso facto eventos noticiáveis (desde que formuladas ou formuláveis de modo eficazmente curto). Dentre o material disponível - que deve ser farto - a seleção é feita provavelmente com base no nível pitoresco, no surpreendente, no à-propos - ou ao contrário, na confirmação da expectativa, na relação evidente com uma situação conhecida e "de atualidade". Ou nas afirmações corriqueiras em fase de campanha. Ver por exemplo:

Painel - 19/11 - Saindo de fininho

Jorge Bornhausen viajou ontem para Portugal, onde serviu como embaixador antes de se eleger senador por Santa Catarina. "Vou para o Primeiro Mundo. Lá não tem grampo", ironiza o presidente do PFL, partido que tem detonado Mendonção.

Informe JB - 21/8 - Lição do xamã

O xamã Davi Yanomami abrirá o ciclo de conferências na Funarte, no Rio, em setembro, sobre os 500 anos do Brasil. A pedido, ele fez roteiro inicial da palestra onde escreveu: "O branco desenha palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento"

Informe JB - 12/9 - Lógica de Delfim

Declaração de voto de Delfim Neto feita ontem em um seminário para executivos de médias e pequenas empresas, em São Paulo. "Voto em Fernando Henrique em legítima defesa", declarou. E antes que o auditório se manifestasse acrescentou: "Mas só no segundo turno".

Freqüentemente a política de articulações e de dissenções é posta em frases por seus próprios protagonistas, que expressam ou implicitam, em fórmulas sintéticas e bem torneadas, situações políticas (alguns políticos são conhecidos como bons frasistas). O nível de eficácia expressiva faz das falas um tópico de escolha para as notas. Particularmente quando se trata de críticas ferinas a adversários. Talvez por isso o Painel inclua o título "Tiroteio" como uma constante. Por exemplo:

Painel - 20/09 - Tiroteio.

De Jader Barbalho, novo presidente do PMDB, considerando que FHC já está reeleito: "A oposição está sendo tão incompetente que às vezes penso até em dar uma ajuda a ela".

Mas os "tiroteios" não se restringem a este espaço cativo. Nas demais notas do Painel e no Informe JB aparecem também falas com este tipo de formulação.

Informe JB - 26/10 - Ausente

Painel - 20/9 - Pura diatribe

O líder do PT na Câmara, Marcelo Déda, iria votar em branco ou nulo se estivesse em Sergipe, onde disputavam João Alves e Albano Franco. Mas acompanhou a eleição em Brasília. "Não dava para escolher entre a oligarquia e o PFL clientelista".

Um caso específico de falas reportadas é o das piadas em circulação. A nota não conta uma piada, o que seria bem pouco jornalístico. Mas relata (e nesse sentido trata-se rigorosamente de informação) que tal piada circula - no Congresso, entre os políticos da tal partido, etc.

Informe JB - 22/10 - Banco escolar

Já não tem mais jeito. Tomaram conta de Brasília as piadinhas maldosas contra os erros de português do candidato pemedebista Joaquim Roriz. A mais suave diz que ele comprica e atende o idioma.

Maldade sobre os candidatos na eleição paulista: estão concorrendo "o que rouba mas faz", "o que rouba e não faz", "o que não rouba e não faz" e o "que não tem a menor idéia do que seja roubar ou fazer".

 

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A tática verbal básica das notas é diretamente relacionada a sua dimensão curta. Não podendo haver desperdício de palavras, tem que ser adotada uma contenção verbal que impede por exemplo o uso freqüente de adjetivos e advérbios. As coisas acontecem então sem qualificações e sem variações de "maneira" e de condicionantes.

O fato de se concentrarem, sobretudo, em substantivos e verbos (coisas e ações) oferece então às notas uma formulação com marcas de "objetividade", de predicações concretas e de ações observáveis. Em síntese, em estruturação de tipo "pão-pão-queijo-queijo". Isto gera uma forte impressão de coisa objetiva - ainda que seja uma objetividade de fofoca. É como se o pequeno fato se desse por si, quase sem intervenção do jornalista, que teria sido mera testemunha quase invisível da coisa ocorrida e colhida sem sua intervenção de repórter.

Note-se aliás que o Painel é uma coluna sem identificação de autor (sugerindo uma coleta-e-formulação coletiva nas bordas das matérias gerais do noticiário). E no Informe JB, embora haja identificação do jornalista responsável, é interessante notar que não se percebe nítidas marcas de individualidade quando a coluna passa de Maurício Dias para Luciana Nunes Leal (interina) e desta para Márcia Carmo; e quando, ao pé de "Lance-Livre", no Informe JB, substitui-se "com Jan Theófilo" por "com Fátima Sá" - tudo isso dentro do período abrangido por nosso corpus. Isto permite perceber a estrutura das notas como um "gênero", e não como um estilo pessoal de jornalista (7).

Entretanto, um exame apenas um pouco mais atento permite ver que estas marcas e seus efeitos de objetividade (embora fundamentais para o correto funcionamento das notas) não são as únicas, e talvez nem mesmo as principais. Podemos perceber algumas marcas expressas da intervenção do jornalista no fato através do próprio texto (8). Várias formulações são encontráveis aqui.

Informe JB - 16/09 - Desafio

Começa a ganhar corpo em Teresópolis, região serrana fluminense, uma empreitada cultural no mínimo ousada. Uma empresa planeja promover ali um festival de cinema. Espera aprovação do Ministério da Cultura. Detalhe: Teresópolis não tem hoje um único cinema. (grifos nossos)

O comentário acima é expresso. Outro modo é o de apenas pôr em destaque um elemento:

Informe JB - 2/10 - Figurino

No último comício em Porto Alegre, Antonio Britto, candidato à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul, tirou a gravata do ministro da Educação, Paulo Renato. Era vermelha.

Não se trata aqui de interpretação, muito menos de crítica. A intervenção tem um efeito meramente explicativo. E que cria o "valor jornalístico" da nota. Compare-se com o resultado desinteressante da formulação mais diretamente objetiva: "...tirou a gravata vermelha do Ministro". Nesta hipotética formulação chã, a reação mais provável do leitor ("e daí?") sugeriria que a nota nem fosse publicada.

Um processo interessante de intervenção (e que não muda em nada o teor "objetivo" da nota, na medida em que este é dado por um relato, sem mais, do acontecido) é o que comparece nas notas em que se relata uma fala. Aqui, o ângulo crítico ou interpretativo ou de comentário não é feito pelo jornalista, mas pela fonte (e portanto, reproduzir essa fala é "objetividade"). Mas o efeito implícito (que é também um efeito típico da fofoca, da qual o contador se exime, pois apenas repete o que disseram) é o de uma participação intencional na "maldade" pelo fato de passá-la adiante. Exemplos:

Informe - 3/11 - Em forma

Observação de um funcionário público ao comentário da ministra Cláudia Costin de que "servidor é muito melhor do que a opinião pública pensa": -"Pela foto dos jornais, as pernas da ministra também..."

Painel - 8/9 - Revanche esquerdista

Do governador Cristovam Buarque (DF), depois de conversar com Fidel Castro sobre a crise das bolsas: "O Fidel sente agora o mesmo gostinho que o Roberto Campos sentiu quando caiu o muro de Berlim".

Às vezes o nível de intervenção aparece muito sutilmente na simples escolha de palavras para apresentar o fato, e na sua ordenação.

Painel - 28/9 - Delírio de campanha

Com o naufrágio eleitoral das lideranças tradicionais (Lula, Brizola e Arraes), o que não falta é candidato a liderar as oposições a partir de 99. Além de Ciro Gomes, Requião (PR) também acalenta a idéia, mesmo que, para isso, precise deixar o PMDB. Problema: vai mal nas urnas.

Compare-se a diferença de efeito que ocorreria se em vez da expressão "o que não falta é..." fosse utilizada uma formulação mais neutra como "surgem vários candidatos a...". E se o "problema", em vez de destacado como fecho, fosse aposto ao nome do político. Observa-se, nesta como em algumas notas anteriormente citadas, o uso do "destaque de fecho" como processo de intervenção.

Mas nem só de sutileza ou de escolha de palavras se faz o comentário. Às vezes o processo é de ordem propriamente argumentativa (ainda que sintética). Observe-se essa seqüência de duas notas encadeadas:

Painel - 18/10 - Varejão liberal 1

A equipe econômica esbarrou num adversário de peso na intenção de tornar definitiva a CPMF: o PFL. Até a solução global do problema tributário, com a votação de uma reforma, o partido diz preferir que a contribuição permaneça provisória.

Painel - 18/10 - Varejão liberal 2

Justificativa aparente: Uma CMF (Contribuição sobre Movimentação Financeira) é contra a ideologia dita liberal do PFL. Justificativa real: enquanto ela for provisória, FHC precisará do apoio do partido para continuar a prorrogá-la no Congresso.

 

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As táticas, processo, motivos e tons são variadíssimos. Como em todo texto que deve ser curtíssimo e expressivo, é freqüente o uso de chaves verbais reconhecidas. É interessante assinalar que o "bordão", a frase feita, o clichê, são recursos reiterados da fala sedutora (como na publicidade). Mas aqui, essa tática é posta a serviço do direcionamento rápido, da construção do ângulo crítico. O uso de ironias e sarcasmo é também amiudado. Mas nem só de graças são feitos os títulos. O ângulo de olhar que oferecem pode ser sério - apenas assinalando o que a coluna entende como melhor espaço de interpretação (ou seja, marcando a posição do tituleiro, ou o que ele considera deva ser a posição "jornalisticamente correta"). Sugiro uma revisão pelo leitor dos poucos exemplos apresentados acima, com especial atenção para os títulos. Podemos além disso observar mais alguns exemplos, agora apenas apresentando o título sem a nota.

No Informe JB:

Deixamos para o final desta seção o componente mais reiterado (e talvez mais vistoso) do processo interpretativo-crítico das notas: seus títulos. Estes aparecem quase sempre como um direcionamento prévio do olhar, um verdadeiro pré-comentário sugerindo como deve ser lida a nota. Assim, mesmo quando a nota é bastante "neutra", no sentido de se manter no espaço de sua informação substantiva, o título "dá uma leitura".

Painel - 2/10 - Salto Alto

O comitê de FHC vai desovar até sábado todo seu material de campanha guardado. A idéia é criar um clima de "já ganhou".

Crime ecológico (7/8) - Olho por olho (9/8) - Vida dupla (15/08) - Queda de braço (4/9) - Só faltava (16/9) - Agora vai (24/9) - Rapte-me, camaleão (18/10) - Efeito colateral (30/10) - Assim, não (7/11) - Que é isso? (11/11) - Tempos bicudos (17/11).

No Painel:

O amor é lindo (9/8 e 21/8) - Ah, bom (27/8) - Não largam o osso (31/8) - O pefelismo como ele é (8/9) - Me engana que eu gosto (12/9 e 22/10) - Sem povo é mais fácil (20/9) - Criando dificuldades... ...para vender facilidades (14/10) - Não perde a pose (15/11) - Sujeito oculto (19/11).

Como se observa (pela sensação de lacuna, na ausência da nota respectiva) há uma estreita relação de significação entre título e nota - que de certa forma "se explicam mutuamente". O que o título sempre parece fazer é qualificar ou modalizar o evento. Aquilo que não pode ser construído através de adjetivos e advérbios é aqui economicamente produzido pelas poucas palavras do título. Este faz com que a nota deixe de ser "coisa objetiva". Faz substituir uma possível leitura do tipo "é assim que as coisas são" por uma proposta de "é assim que vemos as coisas acontecerem".

 

"Para-atualidade" e "balão de ensaio"

Ao iniciar a observação sistemática das colunas, pensei que seria interessante fazer um levantamento quantitativo dos temas das notas - com base na premissa de que observaria uma "onda" crescente de enfoque nas eleições; e que poderia perceber como e por quais assuntos esse espaço seria ocupado após o primeiro e o segundo turno. Ao efetivar esta observação de quantidades, fui verificando que o resultado era decepcionante: simplesmente confirmava a presença diferenciada das eleições antes e depois dos períodos-chave. O óbvio.

Mas foi através desse esforço parcialmente frustrado que se evidenciou uma qualidade peculiar das notas. As colunas de notas são "parasitárias". A expressão não tem nenhum sentido pejorativo (9). Significa simplesmente que não deitam raiz em solo factual ou temático próprio - mas sim na atualidade jornalística. O espaço de inserção do que nelas é veiculado é o conjunto do material jornalístico que vai tecendo a atualidade.

Isto não quer dizer que haja necessariamente referenciações diretas e perceptíveis entre as notas e tais artigos, notícias, reportagens, colunas e editoriais. Mas simplesmente que o texto das notas solicita (e pressupõe) que o leitor seja alguém mais ou menos a par do que "está acontecendo", do que está em cena na realidade político-social e na Imprensa. Significa ainda que os ambientes produtores dos eventos relatáveis nas notas são os mesmos que estão produzindo, em um dado momento, eventos noticiáveis, sobre os quais a imprensa é levada a reportar, opinar ou interpretar.

Se há bastidores, são bastidores de determinadas cenas; se há eventos menores, falas pitorescas, pequenos entreveros - são ocorrências no espaço de atração de "fatos públicos" (fatos selecionados pela imprensa como publicáveis). Assim, as mesmas ênfases que geram assuntos e acontecimentos "recortáveis" jornalisticamente para ter seu cerne de interesse oferecido à opinião pública, geram na beirada (10), esses elementos complementares que vão ser trabalhados nas notas. Veja-se o exemplo.

Informe JB - 25/11 - Por que?

Do líder do PSB, deputado Alexandre Cardoso, fazendo coro com os que já reclamavam a demora da votação do projeto de quarentena: "No Brasil é preciso incêndio grande para chamar bombeiro". O projeto estava engavetado desde 1990 e só saiu com os grampos.

Não é portanto por acaso, nem por decisão explícita prévia dos responsáveis pelas notas que as colunas acompanhem a atualidade construída algures: mas simplesmente uma evidência estrutural e uma necessidade expressional.

Por outro lado, essa relação entre as notas e uma "competência do leitor sobre a atualidade" não determina ausência de inteligibilidade da nota caso o leitor esteja desinformado. Na medida mesmo em que a nota é parasitária, e que pressupõe uma competência prévia sobre a atualidade - quando essa competência não existe de fato, é a própria coluna de notas que se torna uma informação (pelas beiras) do que está "acontecendo".

Painel 7/8 - Questão de Perspectiva

De Jacques Wagner (PT-BA), sobre a proposta de demissão temporária em discussão no governo: "Em vez de criar emprego para a imensa massa de desempregados, FHC está criando o desemprego temporário para os que estão trabalhando".

Sem conhecer o contexto, o leitor recebe um "índice" da sua existência - suficiente para entender a nota (e eventualmente, se for de seu interesse, para complementar, na própria imprensa, suas informações).

Além disso, é preciso observar com atenção essa relação de "dependência". Usar a metáfora de que as notas são parasitárias com relação à atualidade político-jornalística não equivale a dizer que são meramente ornamentais ou sub-produto irrelevante. A metáfora biológica pode ser ainda estendida até à perspectiva de que a relação hospedeiro-parasita pode ser simbiótica. É possível perceber uma funcionalidade das colunas de notas em direção à construção da atualidade. Assim, um tema de nota (inicialmente secundário) pode vir a se revelar posteriormente central para uma cobertura jornalística. O fato menor, apenas pitoresco, no momento da publicação da nota abaixo, tornou-se depois uma questão judicial e jornalística relevante na campanha paulista.

Painel - 15/08 - Tempo é voto

Maluf abriu crise com candidatos a deputado de sua coligação (PPB-PFL-PL). Quer usar na campanha ao governo paulista parte dos comerciais a que eles têm direito. Atrás de Rossi (PDT) nas pesquisas, o pepebista jogará todas as fichas na TV.

Outra possibilidade é a rapidez das notas permitir o início de uma publicização quando se tem apenas um pequeno fato, ainda "meramente fato" (sem circunstâncias noticiáveis, sem expectativas suficientemente estruturadas para serem oferecidas ao leitor, sem intensidade dramática, etc.). Na medida em que estes componentes da noticiabilidade se desenvolvam, o assunto pode então migrar das notas para a reportagem ou para a opinião.

Painel - 22/10 - Análise correta

Na visão de um cacique pefelista, a maior oposição ao pacote virá de Itamar e não do PT e dos demais partidos de esquerda. Se eleito governador de Minas, o ex-presidente terá cacife para incomodar muito a vida de FHC.

Por esta e por outras razões, as colunas podem funcionar como "balão de ensaio". Na relação das fontes com os jornalistas (e particularmente em política, espaço em que o contato é continuado e simbiótico) uma especulação, uma proposta preliminar, uma interpretação, um quase-fato, podem ser insuficientes para gerar notícia; e arriscados pela dúvida sobre as reações que podem provocar. Sabemos que às vezes enunciar uma proposta publicamente corresponde a "queimar" suas possibilidades de encaminhamento, pelas reações adversas ativadas em um momento no qual sua tessitura é ainda frágil. As colunas de notas, dadas estruturalmente como espaço "ligeiro" e construídas em um modo jornalístico de low-profile, são assim ambiente privilegiado para um "balão de ensaio" dirigido à opinião pública, assim como para recados em via pública mas voltados para os "iniciados" (os diversos grupos inside no jogo político) (11).

Na primeira das duas alternativas, o processo funciona mais diretamente no interesse jornalístico, de espaço-teste ou meramente registrador para futuras pautas. No segundo caso, o processo interessa mais diretamente ao tabuleiro político, como um componente operacional complementar no movimento das peças. Na primeira, temos um agendamento da imprensa (outras matérias) a partir de um componente "menor" da própria imprensa. Na segunda, um agendamento do espaço político pela própria política, através da imprensa.

Considerando que a política se faz largamente através de falas, estas não são apenas "fatos relatáveis" (enquanto coisa acontecida) mas também eventuais desencadeadores de conseqüências - pela própria circunstância de terem sido dadas a público. Neste sentido (assim como aliás todo o trabalho jornalístico sobre a coisa política) as colunas de notas não apenas expressam uma política ocorrida alhures, mas se inserem na trama da elaboração política veiculando-a - e portanto dando-lhe, também, direção (12).

Painel (Contraponto) - 21/8 - Fã de dona Ruth

O PSDB não suporta o fato de Maluf (PPB) espalhar à exaustão que é um dos candidatos de FHC em São Paulo. Na segunda, em jantar de apoio a Franco Montoro (PSDB-SP), candidato a deputado federal, o presidente foi duramente cobrado por Montoro Filho e respondeu: "Eu sou apoiado (por Maluf), eu não apoio". No dia seguinte, um repórter perguntou a Maluf o que ele achava da frase do presidente. O pepebista deu uma risada irônica, sugerindo que a fala de FHC não pode ser levada a sério. O repórter insistiu: "O que o senhor achou do Montoro Filho ter dito que ficou revoltado com a sua foto ao lado de FHC nos outdoors?". Maluf riu de novo e cochichou: "Você leu o 'Painel' de hoje?" "Li", respondeu o repórter. O pepebista sorriu mais uma vez e foi embora. A coluna relatou que Ruth, mulher de FHC, classificara a atitude de Montoro Filho como "inaceitável".

No caso específico das notas, esse agendamento aparentemente descontextualizado, rápido, de bastidores ou de cena secundária, torna as colunas um excelente "campo de provas", de risco controlado (tanto do ponto de vista político como jornalístico). Esta característica é reforçada pela diluição da nota específica dentro do conjunto de notas; e pela impressão difusa de que o conjunto tem um certo tom de "fofoca" e portanto é menos passível de responsabilização.

Considerando que, na política dos políticos, dispor de uma "inside information" é sempre um trunfo, é relevante o uso desse material híbrido, público (pois que publicado) mas estruturalmente marginal com relação à grande notícia complexamente desenvolvida. E particularmente o uso dessa estrutura como uma das maneira de dispor da pequena informação - pois não é a posse da carta marcada que determina o encaminhamento do jogo, mas a maneira como esta é jogada (13).

 

Inferências

Embora o texto descritivo-analítico acima tenha se restringido aos níveis mais evidentes do objeto, é o suficiente para desenvolver algumas considerações no que se refere ao ângulo proposto para a abordagem (14).

Como decorre das observações, podemos perceber, imbricados aos componentes "sedutores" e de entretenimento (rapidez, diversidade, ironia, frases espirituosas, fofoca, mesmo, ênfase no pequeno fato tipo fait-divers, ...) diversos ângulos outros, ao contrário, estimuladores de uma perspectiva analítica, como intermediação útil entre a esfera política (do poder) e os espaços de inserção do leitor privado.

Para começar, as notas, fazendo interagir exposição (de fatos e falas) e posição (assumida expressamente pelo texto e/ou título), viabilizam - embora não obriguem, é claro - uma leitura posicionada por argumentos, corroborativos ou de contraposição. Ou seja, o leitor pode "dialogar com as notas", interagir com sua "tendência". Esta é uma característica geral. Embora a posição expressa (ou às vezes apenas implicitada) não seja argumentativamente desenvolvida, nem por isso se torna dogmática. Os "comentários" são sempre leves, incidentais, modalizadores - e não se apresentam como posição fechada ou expressão incontrastável. Além disso, a própria rapidez e a leveza exigidas pelo gênero restringiriam qualquer veleidade opiniática de tipo editorial ou panfletária.

Ao lado dessa característica central - articulação formal e constante entre exposição e posição - outras características observadas funcionam no sentido de assegurar, dentro dos limites marcados pelo modo de expressividade mediática, que as colunas fazem um bom uso de suas possibilidades de estímulo e presentificação do "debate público". Lembremos rapidamente algumas destas características.

A implicitação do contexto - que remete para um espaço político-social mais amplo que o fato pontual relatado - viabiliza (pelo próprio fato de implicitar, na sua incompletude) preenchimentos e referências "em aberto" pelo leitor. Nesse sentido, o aspecto "parasitário" observado é um dado positivo: ao deitar raízes na "atualidade jornalística", as colunas propiciam um solo fértil para referenciação, complementação, revisão. Com isso, as notas oferecem "volume" - a percepção de que os fatos noticiados alhures na própria imprensa têm ainda outros ângulos, marginais, mas nem por isso menos determinantes.

A própria rapidez das notas pode representar uma característica favorável. O artigo de notícias - a reportagem política - mais ou menos consistente e longo, pode criar, como efeito de texto, uma "lógica" geral na qual o assunto se inscreve. Ao relacionar o tema da reportagem com suas causas próximas ou distantes, com posições políticas em pauta, com suas perspectivas sobre "o que está em jogo" - a notícia mais extensamente trabalhada aparece às vezes como "pronta demais" - do tipo "é assim que as coisas são". Esta perspectiva é reforçada pelos efeitos de objetividade da notícia e pela cultura jornalística moderna. Em contraste, a evidente incompletude das colunas de notas sugere uma realidade mais "aberta", mais dispersa, menos logicamente organizada - abrindo espaço, assim, para a interação do leitor.

Mesmo na sua ênfase sobre o "pequeno evento", sobre dados aparentemente menos importantes, as colunas são emblemáticas do que temos como alimento político. Neste sentido, mais do que informadoras sobre os fatos que informa, as colunas dizem a política dos políticos (e de outros fatos públicos socioculturais) no que estas coisas geralmente são autorizadas a ser pelo modus operandi de nosso estatuto sociocultural e político - ou seja, mais freqüentemente determinadas pelo "material de entorno", pelos interesse pessoais e grupais, do que pelas grandes metas e interesse sociais. Os efeitos "bastidores" e "cena secundária" propõem o interesse em olhar um outro lado da questão. Ajudam portanto a superar uma perspectiva "chapada" do fato político como aquilo que acontece "sem remédio" - há sempre um outro lado que solicita exame e reflexão.

A formulação de tipo irônico (freqüente nas notas) parece ser hoje uma possibilidade importante (ou remanescente) da crítica (15). O "humor" comparece (em tom menor) em diversos níveis, como observamos. Sabemos que o riso pode ser utilizado para reforçar um "dar-de-ombros", uma postura de atribuir baixa credibilidade às coisas da política. Mas ainda que, para o leitor menos agudo, esta seja uma primeira leitura, resta sempre o fato de que a ironia permite perceber, em um fato, mais de uma faceta. Do ponto de vista de uma educação política, parece ser um componente fundamental.

As táticas verbais de construção das notas, o trabalho meticuloso de articulação entre efeitos de objetividade e marcas de intervenção crítica, são também interessantes na medida em que diluem duas posições opostas (estas sim, desfavorecedoras de um raciocínio interpretativo): a de que tudo é versão - logo vale tudo, desde que se consiga fazer valer uma versão (o que leva à desnecessidade de agir racionalmente); e a oposta, de que "não se briga com os fatos", como se estes fossem coisas em si, dados e não construídos (o que igualmente impede a análise, por que esta seria impotente). Na superação desses extremos, as colunas trabalham a factualidade das coisas - mas assinalando a possibilidade constante de criticá-las.

A construção envolve sempre - apesar da extraordinária rapidez de cada nota - uma complexidade bem agenciada na construção interna das frases. Mesmo nas notas verbalmente mais simples, a articulação entre nota e título favorece a complexidade. Como vimos, o título interage com a nota em um regime de referência mútua, em que um ajuda a interpretar o outro. O direcionamento do olhar, assim produzido, funciona antes como um "piscar de olhos" do que como uma explicação fechada.

No Informe JB, o texto inicial, mais desenvolvido, de certo modo "constrói o leitor" (16) da coluna. O texto trata de modo argumentado racional um determinado ponto sério da atualidade. Com isto, exemplifica e sugere uma certa atitude analítica, passível de ser transferida para a leitura das demais notas. No Painel (que não possui esta característica) encontramos por outro lado a "caricatura de situação". Esta joga com os hábitos do leitor relativos às charges - que se posicionam criticamente (como expressa sua denominação) sobre fatos públicos, notadamente os fatos políticos. Assim, a caricatura, no Painel, tem uma função similar à do texto inicial do Informe JB, de construir o leitor.

As notas de tipo "tiroteio" (com ou sem este título expresso) põem em cena uma fala política voltada para criticar outrem. Independente de serem ou não tendenciosas (e certamente sendo tendenciadas) expõem o campo político como um campo de posições adversas e de tensões. É claro que esta percepção não é, em si, estimuladora de trabalhar o conflito através de argumentos e de racionalidade. Nossa cultura tende mais ao puro alinhamento simplificador. Mas o fato de que o conflito, aqui, apareça na sua forma verbal assinala pelo menos o valor da palavra como um componente a ser observado (ao lado da força econômica e do poder autoritário).

O próprio "anonimato" das notas (no caso do Painel) e a indiferenciação de autores (no Informe JB) deve ser considerado um elemento positivo, no que nos interessa. Com isto, dilui-se a perspectiva autoral, que tornaria a coluna expressão das posições de um analista. É fácil perceber esta peculiaridade quando se compara as duas colunas em análise com uma coluna de formato similar, no Correio Brasiliense - entretanto assinada por jornalista de renome. Embora na formulação esta seja comparável às que examinamos, percebe-se na verdade sentidos, posições, interferências no fato político muito diferenciadas. No Correio, as notas se apresentam como de alguém que "está por dentro" - que, de algum modo, se atribui a autoridade de "dizer a coisa política como ela é". O efeito é muito menos interessante que o produzido pelas colunas do JB e da Folha.

 

=/=

Nada disso elimina as primeiras impressões (embora evidentemente as redirecione). É preciso dosar a leitura escolada da observação sistemática pela inclusão daquelas primeiras impressões - o que reforça o nível de varejo (retalhista, portanto) em que um produto deste tipo pode funcionar. Para esticar um pouco mais a metáfora mercadológica, o uso feito depende muito do "comprador": um componente fundamental desta análise é a relação de leitura. As notas se apresentam para o leitor como "problema" (como aliás toda informação recebida) - as reações podem portanto ser variadas Se para um leitor as notas se apresentam apenas como entretenimento, notinhas divertidas sobre a politicagem que grassa - o nível de efetiva "edição" será então reduzido ou nulo.

Mas mesmo as diferenças de percepção do leitor não são critério para condicionar o valor das colunas de notas exclusivamente a uma leitura aguda. Para o leitor "escolado", as notas oferecem material de reflexão. Para o leitor mais ingênuo, podem fornecer bases para aprendizagem.

Enfim, a política proposta pelas colunas pode ser definida através das seguintes perspectivas - que decorrem de seu funcionamento verbal e jornalístico. O fato político público "se move" (para aquém das "grandes notícias") também em um nível de eventos, falas, posicionamentos e interesses menores em sucessão dispersa. Este nível menor, marginal, incidental, não é entretanto desprovido de importância ou de determinalidade sobre as coisas. Estes fatos, para sua maior legibilidade como componentes em pleno direito da "coisa política", devem ser expostos em máxima diversidade, com acuidade crítica e com percepção irônica que permitam ao mesmo tempo assinalar seu nível secundário e sua proeminência. O leitor-interlocutor dessa política das colunas é projetado (construído) como alguém que reúne um certo padrão pelo menos básico de conhecimento dos fatos "da atualidade", e de interesse (ainda que disperso) pela factualidade política - ou seja, que dá ao menos tanta importância aos eventos quanto às "grandes proposições". E que por isso mesmo é sensível ao trabalho sedutor das palavras. Esse interlocutor previsto (17) - e que portanto teria as melhores condições de "edição" - é o que está disposto a jogar o jogo das composições mosaicas entre as informações das colunas e as da atualidade jornalística geral. O texto aposta também na sedução do leitor pela oferta de variedade e "abrangência" que cobra pouco investimento de tempo para produzir uma impressão de "estar bem informado". É o que dizem as notas.

 

Conclusão

A subtração do poder político-administrativo (a ecclesia dos gregos) da percepção privada, na ausência de espaços de debate público sobre a coisa pública (pela diminuição da sociedade civil) resulta na disjunção entre o público e o privado, circunscrevendo a ação do homem quotidiano a seus espaços de pessoalidade, sem que este perceba (ou sendo levado a aceitar de modo conformado) que estes espaços são fortemente dependentes das decisões no nível do poder.

A mídia coloca-se hoje como a principal "lógica de filtragem" enquanto esfera de intermediação entre o público e o privado. Mesmo que, dentro desta lógica, uma vastíssima parte seja reservada ao espetacular, à sedução, à obtenção de adesão não racionalmente articulada, não sendo monolítica, permite também a passagem de informação (no melhor sentido desta expressão). Nesse espaço, todo processo que permita lançar um olhar minimamente esclarecedor sobre a cena menor, sobre a cena "desimportante" e (mesmo que parcialmente) sobre os bastidores, sobre aquilo que é subtraído à percepção privada (ou que gostaria de ser subtraído) - é trabalho de resistência à separação entre as duas esferas, do poder e do mundo privado. Separação esta que levaria ao desaparecimento do espaço interveniente, estruturador, que deve ser a sociedade civil; e ao exercício de um poder que, embora de formatação dita democrática, se exerceria essencialmente no segredo.

Só o mercado (globalizado) hoje pode funcionar, em nível macro, "por atacado". A esfera pública ocorre, em geografia variável, nos pequenos espaços em que pode ocorrer. E mesmo a mídia, "de massa", não está impedida de ser (ou de oferecer) condição para o exercício da racionalidade argumentativa. Mas, onde quer que ocorram estas condições, seu funcionamento real parece estar adstrito ao varejo - seja no nível das micro-redes de sociabilidade; seja na dispersão dos espaços ocupados na mídia; seja nas possibilidades de "edição" pelo leitor/espectador. As colunas de notas têm pelo menos a vantagem de se oferecer como tal - e não como pretendido espaço de seriedades fundamentais.

É interessante observar que o termo que logo no início me ocorreu para descrever sinteticamente a impressão produzida pelas colunas (e que acabei adotando como título do artigo) é uma metáfora mercadológica. No início, era devida à forma de apresentação, de materiais diversos, em escala reduzida, cada um. Referia-se portanto ao modo de oferta. Na conclusão, a metáfora se amplia para abranger o processo geral de distribuição e consumo - e é por isso que permaneceu como título.

Para concluir, é possível fazer uma referência adicional entre mercado e esfera pública (talvez para além da metáfora) se lembrarmos a perspectiva de Fernand Braudel (1985), que considera o "mercado" como um fenômeno social pré-existente ao capitalismo (e do qual este se apodera). Fora do nível invasor do capitalismo, o mercado seria visto como um componente valorado do ponto de vista humano e social - e sua lógica não seria contraposta à da sociedade civil (como parece acontecer nestes tempos de capitalismo avançado e de globalização) mas ao contrário como uma das instâncias relevantes de seu exercício. Esse mercado, "isolado" da lógica capitalista, teria tido, conforme Braudel, características que poderíamos relacionar ao mesmo tempo com o que podemos pretender como esfera pública e com o que, no mercado, chamamos de "varejo".

 

Bibliografia

Os artigos de Wilson Gomes e Cornelius Castoriadis nortearam a construção do problema. Os demais artigos foram úteis para o trabalho de observação, para a percepção de determinadas conseqüências derivadas deste e/ou para orientar o olhar a respeito de características da matéria. Forneceram, assim, perspectivas ou sugestões de abordagem. Além disso, os artigos que foram apresentados na COMPÓS de 1998 tiveram a função adicional de me orientar (neófito no GT) na busca do que eu chamaria de um "tom de pertinência".

Albuquerque, Afonso de - A narrativa jornalística para além dos faits-divers. Mimeo, texto debatido no GT Comunicação e Política, na VII Compós - São Paulo, 1998.

Assis, Machado de (1873)- "Tempo de Crise", in Obra Completa, vol. II. Editora José Aguilar - Rio de Janeiro, 1962.

Berger, Peter & Luckmann, Thomas - A construção social da realidade. Editora Vozes - Petrópolis, 1983 (5ª edição).

Braudel, Fernand (1985) - A Dinâmica do Capitalismo. Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1987

Castoriadis, Cornelius - "L'individu privatisé", in Le Monde Diplomatique, fevereiro de 1998, p. 23 - Paris.

Dias, Heloisa - Toda a nobreza de FH e Dona Ruth: a visita presidencial à Inglaterra no discurso dos jornais brasileiros. Mimeo, texto debatido no GT Comunicação e Política, na VII Compós - São Paulo, 1998.

Eco, Umberto - Pós-Escrito ao Nome da Rosa. Editora Nova Fronteira - São Paulo,

Gomes, Wilson - Esfera pública política e Media - II. Mimeo, texto debatido no GT Comuni-cação e Política, na VII Compós - São Paulo, 1998.

Marcondes, Ciro (editor) - editorial e discussões in Atrator Estranho n.º 31, ano IV - ECA/USP - São Paulo, 1998.

Miller, J. Hillis - A ética da leitura (Ensaios 1979-1989) . Ed. Imago - Rio de Janeiro, 1995.

Soares, Murilo César - Representações da reeleição pela imprensa. Mimeo, texto debatido no GT Comunicação e Política, na VII Compós - São Paulo, 1998.

 

Notas:

1 Doutor em Comunicação, Docente no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UNISINOS

2 "Tempo de Crise" (Machado de Assis, 1962), publicado originalmente no Jornal das Famílias em abril de 1873.

3 Mesmo aquelas perspectivas iniciais revelaram-se depois, no decorrer da observação, irrelevantes - servindo isto para evidenciar que as proposições analíticas que se podem fazer (ou, pelo menos, as que fiz) sobre as duas colunas são relativamente independentes da temática predominante em um período. Permanece assim, no que se refere ao recorte temporal, simplesmente o fato de que quatro meses parece ser uma duração razoável para a observação; e que o período adotado (agosto a novembro) foi confortável para o trabalho de observação, deixando ainda um período remanescente satisfatório para a elaboração reflexiva e a redação.

4 Castoriadis é pessimista quanto ao que acontece nesse âmbito: "a educação essencial [...] nas escolas... e universidades, é uma educação instrumental. [...]. E ao lado desta, há a outra educação, a saber, as asneiras que a televisão difunde" (traduções nossas).

5 Provoca-se assim o mesmo tipo de frisson (embora, nas colunas, em nível muitíssimo atenuado) ocorrido com a fala do então Ministro Ricúpero, literalmente nos bastidores da TV, e trazida à cena por processos não formalmente estabelecidos de publicização. Podemos imaginar que, se o Ministro tivesse dito a mesma frase diretamente em cena (em entrevista formal), a coisa toda teria provocado um certo constrangimento, embaraços posteriores, várias críticas e charges - mas (é hipótese que proponho) o Ministro não teria caído. A dimensão do evento seria, nessa hipótese, decorrente antes da ultrapassagem "não autorizada" pelos rituais da publicização que fez dos bastidores, cena. Esta hipótese é baseada na ocorrência freqüente de afirmações de políticos, em público, que sendo verdadeiras "enormidades" não chegam a ter conseqüências mais graves.

6 Lembrete para futuro estudo: pesquisar a construção social e mediática da linha demarcatória entre o "em cena" e o "fora-de-cena" - e as eventuais transgressões nas duas direções.

7 Pode-se aproximar esta constatação do que afirma Afonso Albuquerque (1998) sobre o tratamento dos faits-divers no imprensa: "entendemos as convenções narrativas empregadas pelos jornalistas como um artefato cultural, que permite não apenas dar a forma de histórias às notícias , como também demarcá-las como o domínio de uma competência profissional específica" [e não como] "resultante de intervenção individual e imaginativa do jornalista sobre o objeto noticiável." (p. 14).

8 Entendemos, é claro, que o texto é sempre uma intervenção de seu elaborador no evento relatado. A chamada objetividade jornalística (aliás, a científica também, nas ciências humanas) é um efeito textual e não uma relação necessária das palavras com as coisas. O que estamos chamando aqui de "marcas expressas da intervenção" é também um efeito de texto em que este se desdobra entre o relato com efeito de objetividade, e o "comentário" sobre o relatado - e que portanto evidencia no texto, em vez de esconder, a relação texto-autor, ao lado da relação texto-fato.

9 "Para... indica ao longo de, ao lado de ou próximo a". "Um parasita era originalmente algo positivo, um amigo convidado, alguém que partilhava sua comida" - só depois passou a significar "um convidado profissional, um especialista em filar convites" (J. Hillis Miller - "O crítico como hospedeiro" in A ética da Leitura - Ensaios - 1979/1989. Imago, (data).

10 Esta relação "centro-margem" não é determinada por nenhum critério puramente racional - mas geralmente pelo feeling dos repórteres e editores sobre o que é o "ângulo jornalístico", que forma então o cerne da questão.

11 Não é uma idéia original minha essa perspectiva das notas poderem funcionar como espaço para balão de ensaio. Antes de pensar em fazer o presente estudo, lembro de ter lido em jornal a afirmação de que as colunas de notas são um bom espaço para os políticos testarem propostas e pretensões.

12 É o que aliás cria condições para agendamento mútuo entre imprensa e políticos.

13 Uma pesquisa interessante, na sub-área da Comunicação referida como "estudos da produção da notícia", seria a de acompanhar jornalistas e fontes na feitura "a quatro mãos" desse recorte político-jornalístico que resulta na formulação do gênero "coluna de notas". Um tal estudo permitiria confirmar algumas das perspectivas da leitura feita no presente artigo, e certamente infirmar ou redirecionar outras.

14 A escassez de espaço e o direcionamento do problema não nos permitem desenvolver aqui observações sobre os seguintes aspectos: comparação entre o Painel e o Informe JB; análise dos textos de formato diferenciado (Contraponto, no Painel, e texto maior, de abertura, no Informe JB); análise das caricaturas, no Painel; presença de temas culturais, artísticos, "de cidade" - particularmente no Informe JB; continuidade temática na seqüência diária das colunas; e quantificação de estratégias e padrões.

15 Com a relativização das escalas de valores, o desaparecimento de estruturas sistêmicas de crítica e a impossibilidade de o crítico situar-se em posição externa ao que interpreta, coloca-se em questão a própria possibilidade da crítica - como se pode sintetizar de colocações feitas por Ciro Marcondes (1998).

16 Ver o conceito em Umberto Eco (1985).

17 Não pretendemos que isto seja uma intencionalidade explícita dos elaboradores das notas. A "construção do leitor" e o "leitor previsto" são efeitos de texto, que politicamente solicitam do interlocutor essa postura.

 

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